Minha mãe foi florista
ela faz lindos arranjos florais
hoje ela é
Designer floral
A primeira vez que fui ao ceagesp com ela comecei a imaginar de onde vinham aquelas flores
quem as plantava
quais eram os percursos feitos até lá
como iam
parar.
em festas de casamentos
aniversários
casas de revista
jantares de quem pode pagar para casa ficar igual a casa de revista
e como essas flores
eram d e s t a c a d a s
de seus ciclos
para um tempo curto
consumível, imediato, raso / nesses casos.
como poderia ser que os arranjos
que tem o intuito de embelezar
e que de fato são belos
no fundo eram morte
de suas vidas secretas
de sua inteligência
D e s articulação do jardim
Na casa dos meus pais
sempre tiveram muitos arranjos
minha mãe tem vaso para muita flor
armários de vasos
a casa sempre foi enfeitada
com muitos vasos de flores
cada semana mudavam as flores
e os vasos
e minha mãe ficava brava
se nós não os percebíamos
antes deles apodrecerem.
meus pais se separaram
já faz uns três anos
talvez em algum ponto
tenham sido deslocados
para vasos também
sem terreno comum

Minha mãe não tem idéia do que eu estudo
mas meu curso é bem próximo hoje
das flores em seus vasos
Sou graduanda do curso de Ciências Sociais na PUC-SP
pontifícia universidade católica
lá já foi um jardim.
hoje meu curso está para fechar
ele que sempre foi
um curso de vanguarda
singular.
a puc apesar de privada
nunca teve fins lucrativos
hoje é mantida pela FUNDASP
fundação são paulo
criada para administrar
os recursos da universidade
tem um projeto
de arrancar
os cursos da faculdade de ciências sociais
que comporta também
o curso de geografia
(que já não existe mais)
o curso de história
e o de relações internacionais / esse apesar de seguro é separatista
o que já foi um vasto jardim
polo de resistência
viveu mesmo nos momentos mais sombrios da história do país
permitiu vida dos que perderam seus espaços
dos professores perseguidos
dos estudantes e artistas
mas
assim como as flores em vasos
hoje
parece só ser questão de tempo
meu curso está morrendo
isso que esperam
das ciências humanas
não todo mundo
há quem lute pelo jardim.
meu curso
apesar de existir ainda
está morrendo
é incoerente
não é rentável
somos flores no vaso
porque a puc já não é mais jardim.
A PUC é administrada pela Fundasp
e o curso de ciências sociais não tem aluno
não tem demanda
Porque não tem retorno

ao mesmo tempo
o que fica?
“ciências sociais”
como uma roupa emprestada
vestiu um curso novo da ESPM
Escola Superior de Propaganda e Marketing
coordenado por um profissional que dedicou sua carreira a criação de novos produtos, inovadores
se chama ciências sociais
do consumo
eles estudam o mercado consumidor
para que consumam mais
para que se criem novos produtos
antecipem tendências consumistas
pelo big data
dataísmo
acéfalo
mecânico
a mais b sem um c
como Funes
marketing para os seus desejos serem atendidos
previstos
antecipados
futuro que é dado
exploram-se afetos e sensibilidades
onde o futuro é dado
ele nos é dado
—
O consumo é o fim
fim?

O futuro é dado
“O advento de uma percepção do futuro esvaziada de novos sonhos abriu caminho para as reminiscências, a nostalgia do passado, para uma cultura em busca de referências, de raízes”. disse Hobsbawm sobre o século XX e a morte das vanguardas
mas raízes em vasos?
*potencial mercadoria*
Sabe que o tempo
como dimensão sensível que é
passou a ser explorado.
vira terreno passível de exploração
econômica
o tempo do homem
dos historiadores
da memória social
da biografia
se confunde
com o consumível
O marketing da memória, baseado no consumo emocional e experiencial, é uma exploração mercantil das expectativas de prazer do hiperconsumidor ávido pela satisfação dos seus
desejos e promoção do seu bem estar. (Lipovetsky e Serroy.Estetização do mundo: capitalismo artista)
memória lúdica
uma coexistência de tempos múltiplos
que não se entrelaçam
não tem rastros
como flores em um vaso
deslocadas, ressignificadas
sem perspectiva de futuro
que vão para lata de lixo em poucas semanas
tempos-objetos montados
como cenários cinematográficos
presentistas
vintage. o vaso no qual as flores do jardim do passado morrem
O Vintage de acordo com Lipovestky e Serroy em seu livro A Estetização do Mundo é
“uma imersão fruitiva e distanciada no
universo dos signos contemporâneos”
distanciada imersão distanciada /?/
uma das traduções (…) de um neoconsumidor que quer fazer suas compras em toda parte, que mistura estilos e as aquisições, que quer poder escolher o que lhe convém, o que gosta, em todos os horizontes e em todos os espaços de tempo, tanto no presente como no passado.
gostoso sem dúvida
mas o que cultiva-se
é um mundo de funes
imagético
2D
big data sem data
sem tempo
sem memória
só experiência consumível
presença estética do passado no
imaginário do presente
um mundo de dados
como um mundo de Funes
onde o futuro nos é dado
como um grande CEAGESP de tempo objetos
prazerosos
cheirosos
nostálgicos
que colocam o consumidor
numa posição superficial
na qual a complexidade das narrativas são reduzidas
por desejos materiais
estéticos e efêmeros
mas aproveitemos seus cheiros, é de fato gostoso.
quando os arranjos da minha mãe
se esgotam
são jogados por ela na lata de lixo
as flores arrancadas
que não se comunicam mais
sem terreno comum
sem espaço ocupado
vão para a lata de lixo quando murcham.
a reificação e mecanização radical do conhecimento humano
que trocou o meio e o fim
produz chorume.
mas é claro,
todo lixo
há de produzir
chorume
e o chorume de todas as dimensões exploradas
está escorrendo agora pelo mundo
meu curso morre
em âmbito nacional
choramos
como dói se perceber flor no vaso
é questão de tempo só
mas que as lágrimas reguem novos jardins
cultivos
há ainda quem ame jardins
que se quebrem os vasos


