FIOS, PAISAGENS E PENSAMENTOS

Calma, quietude e um pouco de transcendência era o que eu desejava em um templo àquela hora do dia. Através da meditação se pode criar intervalos entre os pensamentos, considerados tão necessários ao arejamento da mente como as janelas aos espaços confinados por várias tradições orientais há milhares de anos.

Cruzar a cidade até a Igreja do Bomfim, na Cidade Baixa, poderia ter sido uma experiencia contemplativa apaziguadora se em Salvador, que já foi a primeira capital do Brasil e uma das mais lindas cidades da América portuguesa, a paisagem fosse um valor preservado no processo de ocupação urbana. Mas aqui, como em muitas cidades brasileiras, o diálogo com o entorno é um termo que desapareceu da cartilha urbana enquanto o maior ganho sobre o valor da terra ganhou letras garrafais. 

Como os elementos nessa paisagem, em minha mente as idéias se sucedem freneticamente, muitas vezes sem lógica aparente ou conexão entre si – uma confusão aceita por todos no mundo ocidental como normal, mas que me custa noites de sono. Os pensamentos em geral referentes ao passado ou ao futuro, alijam-me do aqui e agora. Nesta cidade, ao contrário, o tempo presente parece reinar soberano: a moda sempre se impõe a qualquer tradição; o imediatismo recorrente não consegue dar lugar a qualquer planejamento do futuro e uma visão do tipo capitalista predadora humilha ideais de preservação ou de precaução. 

Danem-se as arvores famélicas e deformadas, os monumentos destituídos de sua escala e as tristonhas edificações históricas! São apenas figurantes desprestigiados das ruas soteropolitanas, entre postes enfileirados de concreto e suas redes catenárias que parecem agulhas e fios tricotados por gestos aleatórios. Esse emaranhado de linhas ignorado cotidianamente, quando capturados pelas lentes fotográficas ou olhares mais curiosos e sensíveis, vinga-se  e, então, vai-se a Gestalt e o que era fundo vira figuração.

Como detesto esses fios carregados, grávidos, curvos multiplicados, entrelaçados – perdidos em seu caminho entre casas, padarias, bancos, escolas e salões de beleza! Por causa deles as árvores nas ruas exibem copas disformes e ventres abertos. E tudo isto porque nesta parte do mundo, desaprendidos da antiga e preciosa arte de criar cidades, os homens esqueceram de combinar no dicionário de rimas as palavras Folhas e Fios. 

Sem as sombras texturadas das árvores, no chão ensolarado da cidade predominam as linhas finas e escuras que os postes, como lápis apontados para o céu, desenham em seu inverso e também nas fachadas. Nas linhas paralelas, partituras silenciosas, eventualmente ninhos de pombas e andorinhas ativam nervosas notas musicais.  

As arvores, sem perguntas ou julgamentos são como um piano quebrado ou silenciado por um manto de feltro, como na famosa obra de Boys. Um mundo pouco revelado para nós, humanos, sempre tão envolvidos em afirmar nosso próprio umbigo como centro do mundo e mal enxergamos a alteridade em nossa própria espécie.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

Alberto Caeiro

Por acaso alguém já mediu o quanto de vida há na árvore em frente à sua casa? Quantos microorganismos ali vivem e se alimentam, quantas espécies de pássaros por ali passam para se reproduzir, limpar suas penas ou se alimentar? Alguém tem idéia de quantas sementes estão prontas para espalhar o seu DNA pelo mundo na boca de insetos assanhados que cumprem a sua obrigação desafiando o peso do ar poluído e outras dificuldades?

Um dia desses sonhei que na cidade os postes se multiplicavam e se aproximavam um dos outros, como mourões de cercas no sertão, como batalhões de soldados, guardando entre si uma distância mínima regular e disciplinada. Marchavam e seguiam dividindo territórios. Os fios entre eles se duplicaram dois a dois e se arrepiaram – arames farpados,impedindo o direito do cidadão de ir e vir. Alguns deles – mastros, empunhavam bandeiras, definindo grupos, irmanando interesses escusos, autorizando sentimentos supostamente majoritários, anunciando possíveis vencedores de alguma disputa secreta, mas perigosa.

As árvores rebeldes que insistiam em sobreviver na cidade foram todas queimadas.  Os pássaros e os milhares de insetos emudeceram, antes de desaparecer de vez. Entre os incendiários alguns reivindicavam espaço dos lotes para novas construções, outros queriam a visão desimpedida das vitrines de suas lojas e outdoors para uma melhor aproximação entre produtos e as necessidades do consumidor. Outros ainda, reivindicavam a abertura de garagens para os seus carros que as árvores nas calçadas impediam, embora elas estivessem ali antes da casa. Alguns viam a queimada com números e outros com lágrimas.   O ar da cidade estava imprestável, parecia o fim do mundo.

Em minha perplexidade, eu gritava:

Essas cercas são o fim do território em comum, é a morte da cidade! Nesse clima  e sem arvores, quem andará pelas ruas? Ninguém ouvia Aruane Arvore. Outros diziam,  a cidade hoje é cheia de muros, melhor as cercas, ao menos possuem vazios. Vazios de comunicação, eu disse para mim mesmo. 

Os muros urbanos, melhor se não existissem, mas ao menos, em sua materialidade opaca tornam-se suportes de comunicação, um palimpsesto formado a partir de mensagens tão diversas quanto são as necessidades humanas de comunicação, arte, politica, oferta de serviços, publicidade. Que o diga o graffite, o lambe-lambe, a arte urbana.Link

Há muito tempo acompanho as estreitas calçadas de minha cidade serem rebatidas por muros cada vez mais altos e mais diversos que protegem o espaço privado e empobrecem o publico, sob a forma de condomínios, shoppings centers, e outras tipologias mais. De tanto amor a cidade,  eu me perdi nela e a minha pintura encontrou significado e saiu da escala do quadro, um mundo criado para ocupar um espaço entre molduras a enfeitar salas e combinar com sofás.

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Falando em sofás, como são duros esses bancos de madeira. São 11 horas e estou aqui nessa igreja há 40 min. Em nada ajudou a atmosfera carregada de fé, pouco serviu a densidade das paredes a me isolar os ouvidos do mundo lá fora. Nesse templo ressignificado a cada dia pelas alegrias e dores de milhares de fiéis eu não consegui transcender às questões de ordem prática ou conceitual da realidade. Que decepção, não consegui meditar; os pensamentos não deram trégua!

Talvez não seja bem assim. Como diz Choguyam Trungpa, famoso mestre do budismo tibetano, meditar não é deixar de pensar: mas permanecer consciente de cada pensamento e tentar não embarcar na historinha que cada um nos conta, nos devaneios que surgem a partir de nossas construções e percepções. Bem, talvez tenha conseguido a primeira parte.

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