O filhadaputa sempre disse que ia me levar pra viajar. Só que eu nunca pensei que fosse ser assim. A gente se conheceu muito novo, achei que o velho ia durar pra sempre. Morreu, bateu as botas, abotoou o paletó, partiu dessa pra melhor, comeu capim pela raiz, dormiu o sono dos justos. Como se nisso houvesse qualquer justiça.
Comia tanta porcaria que eu não sei nem dizer. Toda noite eu fazia janta, bonitinho, saudável, como dava, como mandava a cartilha. Salada, estrogonofe, macarrão, uns leguminhos. E ele até comia, reclamando. Mas chegava de noite entornava uma lata inteira de leite condensado na cama. Escondia doce pela casa, salgadinho, doritos, ele fingia que comia bem e eu fingia que acreditava. Era um acordo, acho que estava cansada de incomodar – naquele ponto tudo que eu falava já soava como reclamação. A gente tava mesmo como um desses casais velhos, que se conhece mais tanto que nem precisa falar nada. Meio resignado mesmo, a mesma rotina, os mesmos hábitos.
Nem dinheiro a gente tinha pra esse monte de guloseima. Eu que controlava as contas, fazia os pagamentos. Ele saía e trabalhava, eu geria o tempo e as contas. Até que parecia justo, eu trabalhava o mesmo tanto ou mais em casa, nunca gostei de ficar parada. Não queria ser como essas senhoras que ficam na frente da tevê o dia inteiro vendo novela atrás de novela, o dia inteiro aquela coisa, uma personagem mais fictícia que a outra. A única que eu gostei era aquela da Carminha, ouvi até dizer que vão reprisar.
Com a despesa do enterro não sobrou mais muita coisa. Pelo menos não tenho sogra, ela deu no pé um pouco antes do Flávio. Na verdade acho que o que ele nunca conseguiu mesmo era viver sem a mãe.
O sono dos justos. deve estar numa paz só o gordo safado. E eu fico aqui, sozinha. A casa também já está mais pra lá do que pra cá. Tão moribunda quanto o Flávio. Eu só, os meninos crescidos e ele lá egoísta de merda debaixo de um punhado de terra. Vieram pro enterro, os dois. O Flavinho com aquela esposa dele, não sai do celular um minuto, nem no enterro do sogro. Ela é influencer, ele disse. Uma menina fútil dessas, há de se pensar que pelo menos no enterro ela ia botar uma roupinha mais adequada. A saia colada de malha preta quase mostrando o cu. Sou do tempo que cu era uma coisa mais individual, privada, todo mundo sabe que tem, não precisa alardear por aí. O Humberto, veio sozinho, não trouxe o namorado. Não me contou ainda, acha que eu não sei nada de redes sociais. Mas a Sirlenne me mostra, tudinho. Não sabe ainda que eu não vejo problema. Como eu disse, o cu é dele, ele faz o que quiser com ele. Entrada, saída, não me importa. Não precisava era ir morar tão longe da mãe. Foi a última vez que eu vi os meninos.
Imagino ele lá, olhando pra mim achando que to presa aqui ainda, nunca vou encontrar saída, nunca vai mesmo me levar pra viajar. Imagino ele rindo de mim, como se eu fosse idiota. A esposa boazinha, cozinha toda noite, lava e passa, tava mais pra mãe dele do que qualquer outra coisa. Achava nem que eu sabia dos esconderijos dele, das saídas dele, do dinheiro que sumia misteriosamente da conta. Morreu de gula o velho safado. Pudera ter morrido de outra coisa. Acho que gula foi justo, assim não dá muito na cara o que ele me fez passar.