Rinoceronte Branco

As lichias estão irresistíveis. Aquela casca rugosa como uma pele de dragão arrasta minha mente lá pra dentro da sua polpa, carnuda, suculenta, escorrendo doçura líquida. Sinto, além de muita saliva, arrepios. Aquela bolinha mágica fumegante mexe comigo e eu não consigo lutar contra. Não dá. Toda vez que elas chegam e ficam ali, se expondo, me testam. Dessa vez provaram fraca a minha carne.

Quando entramos em dezembro e o Giovani traz as caixas enviadas da fazenda de Campinas e começa a arrumá-las eu chego a me esconder, para não verem como eu coro. As vezes, quando não tem jeito, finjo logo que é calor. Minha sorte é que normalmente é verão e como sou uma dessas ruivas camaleoas a mudança abrupta de cor é mais natural, vou do creme para o fogo em um instante. Hoje não resisti, peguei uma delas e levei comigo. Conferi meu bolso por debaixo do avental verde para verificar se estava limpo e na primeira deixa coloquei a lichia ali, no meu colo.

Que besteira. Ela ficou roçando na minha perna, fazendo uma cosquinha louca. Parecia de propósito. “Não esquece de mim, Olívia.” Se pudesse ela diria. E nessa agonia, todos que chegam por aqui e pedem minha ajuda para escolher uma fruta estão sem saber me arrumando sérios problemas. É que é a última hora do meu expediente, só quero voltar para casa e satisfazer esse clima tenso entre nós. Ela não deixa a minha mente em paz.

Consigo sentir, juro por deus, sua carne translúcida latejando e minha língua sendo banhada pelo seu suco doce levemente ácido, brincando com sua carne e abrindo o caminho até seu caroço. Por que não vou lá dentro no depósito e acabo logo com isso? Porque minha intimidade não tem nada a ver com ninguém, se alguém me visse ia ser um pesadelo para uma tímida como eu. Uma vez a Carla me pegou comendo um gomo de tangerina e foi tão difícil eu voltar a falar com ela. Não quero que isso aconteça de novo. Eu só como em público quando todo mundo divide, daí é algo mais casual, menos compromisso, eu relaxo.

“Boa tarde, com que posso ajudar?” Sorrio torcendo para que o senhor que entrou na Quitanda saiba escolher suas próprias frutas. Ninguém entende o quão difícil é ver, sentir, apalpar, escutar, sentir seu cheiro, sem se apegar. E uma vez que se estabelece essa relação, confesso que imaginar outro a comendo me faz um pouco mal. Pior ainda é imaginar seu caminho muitas vezes doloroso até seu destino como doce, sendo cortada e assada em alta temperatura. Fico aflita com essa falta de cuidado com seus tecidos.

“Eu quero uma melancia” ele disse pra mim, como se querer bastasse. Minha vontade é explicar a ele que escolher faz parte do processo, mas como sou paga pra isso e as pessoas não estão nem aí para o que perdem ao terceirizar essa etapa do relacionamento que se pode ter com uma fruta, vou para onde elas estavam. “Para quando?” perguntei como perguntamos às grávidas que tem hora marcada para cortar a barriga. “É para agora mesmo.” veio em nossa direção. Claramente ele não está nem aí para a melancia. Não parece nem que é para ele. Só um produto, um simples e amorfo produto. Como se fosse um saco de Doritos. Nessas horas eu escolho o mais friamente possível para não ficar com ela na cabeça depois, sangrando esfaqueada.

As melancias têm se tornado muito complicadas porque me lembram a barriga da minha irmã. Ela carrega um fruto humano já quase maduro, e no momento se parece demais com elas, redonda e cheia de estrias. Tenho vontade de levar todas para casa para que minha irmã não se sinta tão incompreendida como tem se queixado. Então disse para ele que bastava ele bater como quem quer entrar e escolher uma que estivesse oca. Não vazia, como ele a via, e sim oca, com um som bonito. Daquele que nos toca como um bebê chutando lá de dentro, exagerei pensando na barriga da minha irmã. E me afastei.

Depois foram goiabas, maracujás, carambolas, bananas. Me senti culpada ao ajudar a mulher que estava com um garotinho atrás de mangas. Corei lembrando do prazer da primeira vez em que chupei um caroço e acabei ficando toda melada, tinha a idade dele. Cada pessoa que entra é um alívio porque me distrai levemente da quase minha Lichia que continua alí, me esperando. Mas ao mesmo tempo uma pressa louca urge da altura do meu bolso e faz subir uma barreira em relação às outras frutas que me impede de exercer minha função na venda. Eu só tenho olhos pra Lichia. Minha língua formiga, dormente. Meu corpo todo a serve. Até que alguém passa pela porta.

“Oi.” Não quer minha ajuda, não quer nada de mim. Está cumprimentando todas as frutas, uma por uma, passando a mão cheia de unhas compridas e bem feitas, aquela unha que arranha bem gostoso. Eu sei que ela espera sentir algo. Sei reconhecer quem entra aberto por aqui. Ela contempla. E eu a contemplo. Pequena, tinha olhos puxados meio amendoados, a pele clara e uma cor de boca rosa quase vermelha, como as mechas vibrantes em seu cabelo preto repicado. Ela passa por mim e me pergunta se não tinha nectarina. Eu demoro para responder, tinha esquecido enquanto mudava de cor e decifrava seu sotaque tão intenso quanto um tango, era argentino. “Ah, elas chegam amanhã. O produtor, que é da sua terra se não me engano, não mandou o suficiente e elas acabaram hoje cedo.” lembrei, vermelha.

Ela anda um pouco mais e para nas lichias. Fica lá, em pé, as encarando. Parece saber que as nectarinas deveriam estar por alí. Quando tem lichia tem nectarina também. É evidente para quem liga. É o mês delas. Reparei no seu vestido do mesmo tom das frutas. De repente ela vira e me olha. Parece que ela sabe que falta uma lichia. A lichia que eu quero tanto provar. Assumo, pela maneira que seus olhos me devoram, quem era a nectarina que ela procurava.

Fui levando bem devagarinho minha mão por cima do meu bolso, só para checar. Ufa. A Lichia continuava ali.

Respiro fundo e me empurro até uma distância que me garanta ser consultada caso fosse preciso. “Você sabe que está em extinção?” me atrevi já que não fui indagada. Falei tão baixo que não foi me dada uma resposta. Giovani ria do caixa, ele sempre acha alguma graça em mim. Apesar de me tratar com carinho e com uma intimidade que só quem de fato é próximo compartilha, ele não me conhece, pelo contrário. Sinto que se começasse a falar muito o afastaria de mim. Mas tudo bem. Não me incomodo em pluriexistir como versões de mim nesma que nem eu conheço. Me divirto imaginando a Olívia que há no Giovani. Se é que há algum espaço para mim. Ele é um querido, mas uma espécie de escultor de si mesmo, é ainda seu próprio atelier. Imagino um jardim de esculturas interno e narcísico no qual ele coloca bastante de sua atenção. Ele, petrificado, as exibe sempre que pode na crença de que exportará o que foi por ele esculpido para os jardins alheios. Enfim, se eu couber em sua imaginação, sou só casca. Ninguém mais tem muito tempo de imaginar carne alheia. Não a carne do corpo, tão exposta, trabalhada, vendida e julgada. Falo da translúcida que pulsa, oculta e misteriosa. É triste.

18 horas. Estamos fechando finalmente e a moça ainda está alí. Não quero apressá-la. “Você sabe que está em extinção?” tento de novo “como rinocerontes brancos” forcei. Ela me escutou. Estranho, ela me ignora mesmo. Parece ter ficado incomodada. “Ninguém mais as entende, por isso eu digo.” Tento explicar. Ela solta a fruta, pronuncia algumas palavras que carregam seu desagrado enquanto sai da loja. “Bajón! Así me rompe la paciencia. Nem para me arrumar nectarinas.” Oxe. Pendurei meu avental na quina mais próxima e fui atrás dela para descobrir o que é que foi isso. Dei um toque de longe para Giovani, que denunciou a injustiça da minha saída com as sobrancelhas contornando os olhos saltados e os braços agitados, meio que convocando Carla para intervenção. Não ligo, nem ela, sou sempre a última a sair mesmo. Giovani é mal acostumado.

Mergulho na calçada que mais parece uma esteira de olhos. A procuro pelo fluxo de semblantes cansados iluminados pelas telas de seus celulares, avermelhados pelas luzes dos automóveis refletidas pelos prédios de vidro, que também iluminam com luzes de natal. Essas, por sua vez, remetendo às promoções convidativas das lojas no andar térreo, abertas ainda como bocas famintas. Acho que a achei, é o rosto escuro. Ando rápido. Seu cabelo me guia. Me atiro como uma flecha. Ela desvia como se me visse pela sua nuca. O que é que eu fiz para irritá-la assim?

Vou a seguindo até que quase a ultrapasso. Ela despenca subitamente no degrau da escadaria do prédio em construção. Sentada começa a chorar. Por um momento penso no sabor que suas lágrimas poderiam ter. Lembro da Lichia. Vou me aproximando, estou bem confusa. Como eu vim até aqui? Pego com cuidado a fruta no meu bolso e a coloco em sua mão como se fosse o mais frágil cristal. Agora que sei que sua reação não teve nada a ver comigo percebo que estou num terreno desconhecido. Não a conheço. Não tenho a menor idéia de quem ela é. Contudo fico alí, parada, na sua frente.

“Glaucoma.” ela me diz. “Yo he venido acá para digerir mí destino, sola, distante. Para en la vuelta tener más una llegada a mi ciudad, quando vejo Buenos Aires con saudade sus cores mudan. Caminito danza sin música, sus cores vibran diante de mi ojos.” não sabia o que dizer, mas acho que ela não esperava nada de mim, a atendente da Quitanda que a atrapalhou, sento a seu lado. Ela continua no seu portunhol “No adianta, no me interessas ser Édipo, no procuro respostas. No quiero pierder mis ojos. Son la mayor puente que tengo con el mundo. Si pelo menos tivesse nascido cega, teneria otras. No seria fotografa! Que mierda. Que seré?” Me olha e relembra porque estou ali. “Me gustaria ver una Nectarina una ultima vez, mi abuela hacia la mejor torta com ellas. Cuando volver a mi casa no será más su tiempo.” Era uma despedida. Chora mais e eu me forço a não pensar na carne assando na torta. “Sentia as frutas na venda para guardá-las em minha memória. Como terei que hacer con las faces dos meus próximos. A minha mismo también.”

Não há nada que eu possa dizer a ela. Tem razão, perder canal com o mundo é de fato morrer. O conforto do meu silêncio me deixa tensa diante do que acabo de escutar. Me arrisco mais uma vez. Respiro fundo e peço a ela que feche seus olhos. Ela obedece derrubando as lágrimas já repletas de nostalgia que se apoiavam no parapeito da janela. Em seguida toco em suas mãos, a relembrando da pequena dádiva que continuava ali, do jeitinho que a deixei. Sem abrir os olhos, ela lentamente sente a pele do dragão, vai passando seus dedos por aquelas montanhas mágicas, sentido todo o relevo. Respira fundo também. Eu a digo que rasgue a casca. Respiro. Respira. Ela rasga. E o mistério pinga em suas mão. Ela sorri timidamente e o sente.

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