Blog dos frequentadores do laboratório de ficções breves de Ronaldo Bressane
Poema enquanto ensaio
Trans/Ensaio Poesia
Definição de ensaio. É a mente quando brinca.
Definição de poesia. É o máximo de concentração de sentido em um mínimo de palavras.
Bem, partindo dessas duas definições, como escrever poesia em tom de ensaio?
Se pensamos que o ensaio é a procura de uma ideia, ideias que se chocam com outras ideias resultando em uma ideia que não estava ali antes, então podemos resultar que o ensaio é um movimento de conceitos. Um movimento tateante, que só se depara com uma conclusão por acaso. Como disse antes, o ensaio sempre duvida de si mesmo.
CABRAL
Existem poemas rimadinhos, super metrificados, que contém em si o germe racionalista do ensaio: as suas tentativas e erros, e uma conclusão súbita. É o caso, por exemplo, de muitos poemas de João Cabral de Melo Neto, nosso poeta mais cerebral. O interessante é que, apesar de ser tão cerebral e tão afeito às ideias, reflexões e conceitos, toda a poesia de Cabral é fundamentada em coisas, em objetos físicos, em substantivos concretos. E mais: Cabral tem profunda aversão aos clichês. Ele não se satisfaz em comparar uma mulher a uma flor. Quer saber os porquês. É uma poesia explicativa. Suas comparações, por exemplo, não são líricas, e sim abstratas. Quando ele compara uma coisa a outra, destrincha a fundo quais são as camadas que ligam um objeto a outro. E o movimento deste destrinchar é o ensaio.
Como “Imitação da água”, um poema dos anos 50, em que o poeta compara a mulher amada a uma onda na praia. Mas não exatamente isso: a onda está parada, pouco antes de se quebrar. Então o poeta faz várias aproximações a este conceito da onda parada, usando metáforas, aliterações, assonâncias e seu ritmo lento e venenoso. Ele quer dar conta de um paradoxo, uma onda parada, para comparar a uma mulher deitada. Assim, a onda se transforma em uma planta, em um olho, em uma montanha.
O movimento do poema é ensaístico, ainda que ele use descrições. Vai até mudando o tempo verbal: a onda “parava”, depois “parara”, e depois “guardasse”, no subjuntivo. A conclusão é que a imobilidade da mulher deitada é precária, pois traz em si “o dom de se derramar”. Este dom é, para o poeta, da natureza íntima das águas. No entanto, apesar da sensualidade e da sugestão sexual, as águas podem ser traiçoeiras, “fundas”, trazendo uma “intimidade sombria” e “certo abraçar completo”, ou seja, o abraço do afogado, o abraço da morte. A cama então do início do poema se converte em um leito de morte.
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GANDOLFI
Nesse cruzamento entre poesia e prosa típico da poesia ensaística, a forma da poesia pode estar mais próxima da prosa, porém o seu berço pode ter sido a poesia. Exemplo: “A canção de amor de J.Pinto Fernandes”, de Leonardo Gandolfi, em Escala Richter (7Letras). Todo mundo sabe que J.Pinto Fernandes é o herói de um dos poemas mais famosos da poesia brasileira:
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Pois bem, quem seria esse J. Pinto Fernandes, que Drummond apresentou de propósito para dar um fim repentino à história de amor? Quem é esse personagem? Uma figura que aparece para arrumar ou desarrumar tudo? A epígrafe do livro de Gandolfi dá uma dica: “There’s a crack in everything”, de Leonard Cohen, que ele continuava: “That’s how the light comes in”. Uma rachadura em tudo é o que ele investiga nesses quatro pequenos monólogos de mal-amados (que também dialoga com outros mal-amados, aqueles do Cabral). São textos em prosa que usam a fala oral, têm a forma de depoimentos (para algum repórter?). Pessoas que, de uma hora pra outra, abandonaram ou foram abandonados. É como se o disruptivo J. Pinto Fernandes acabe se tornando uma metáfora de algo que, em vez de trazer o amor, o afasta. Uma outra versão de J. Pinto Fernandes, contada de seu ponto de vista.
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ENZENSBERGER
Como o poema ensaístico brinca com os movimentos da prosa, pode também incorporar da prosa aquilo que ela tem de ficcional: descrições, personagens, diálogos. É o caso do longo poema do alemão Hans Magnus Enzensberger, que escreveu entre 1969 e 1977 O Naufrágio do Titanic (Companhia das Letras), em que compara a queda do cruzeiro à queda da sociedade burguesa. É uma metáfora que ele vai desdobrando em muitas maneiras e registros, errando e acertando aqui e ali, até que, ao fim, o poema se torna uma pequena prosa em versos livres:
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LESLIE KAPLAN
A poeta e romancista francesa Leslie Kaplan usa a poesia para questionamentos sobre a própria busca da poesia. Ela nasceu em Nova Iorque em 1943 e vive na França desde os três anos; seu trabalho com a língua põe em jogo muitas vezes sua condição bilíngue, como neste poema reproduzido aqui sobre o beijo entre as duas línguas: translating is sexy, ela diz, buscando o ponto em que as duas línguas se encontram lá no fundo da boca – a poesia, talvez?
Seu primeiro livro, L’Excès-l’usine, foi publicado em 1982. No Brasil, saiu o belíssimo romance O psicanalista (Companhia das Letras), terceiro volume da série Depuis maintenant, que conta a história de Eva, personagem que consegue, lendo e pensando nos romances de Kafka, “dar um pulo para fora da fila dos assassinos” de sua própria vida. Leslie Kaplan publica pela P.O.L. Éditeur e seu último romance, Minha América começa na Polônia, constitui um relato autobiográfico que conta a história de sua família e a sua própria – os avós poloneses, imigrantes judeus nos Estados Unidos no começo do século XX, e os pais, americanos, que foram para a Europa durante a segunda guerra e se estabeleceram na França do pós-guerra. O romance conta suas idas e vindas sobre o Atlântico, coadunando na linguagem chewing-gum e ice-creams americanos com cafés e boulevards franceses
“Translating is sexy”
a poesia é um beijo
entre duas línguas
a french kiss
ou
um beijo americano
buscar o ponto
em que as duas línguas se encontram
lá no fundo
da boca
ou então na superfície
a ponta da língua
contra a ponta da outra língua
how do you say that in english?
I love you
that’s all
and
hold me tight
and
give it another try
baby
qual é o ponto de encontro
the meeting point
mas aí a gente pensa em carne
I can’t meet you here
dear meat
let’s play
a game
sim, vamos jogar um pouco
translating
is sexy
I know that
então
a boca the mouth
a língua the tongue
descreva a sensação
ooh ooh ooh
descreva de verdade
the tip of my tongue
dear love
will touch yours
dear love
and we will sing
dear love
together
the tip
of my tongue
will touch
yours
we won’t sing
my love
we will breath
my love in silence
we won’t sing
we will breath
in silence
we will live
and touch
slowly
does the tongue
have a skin?
the soft skin
of the tongue
will rape me
not rape
wrap
not wrap
uma língua doce
um pouco
rugosa
e não vamos falar
da saliva
essa substância mole
e doce
na boca
podemos trocá-la
ou talvez
ela troca você
como uma velha ponte mole
dilui-se dentro dela
ela faz você passar
é uma língua uma saliva uma velha ponte mole
ela leva você
ela faz você passar
but say it again
the soft skin of the tongue
some thing soft
and pointed
how is that possible
it is
say it
and do it
you do it to me
I’ll do it to you
again
and again
till silence
how is silence possible
the soft skin of silence
it is
soft silence
pointed silence
can silence be a bridge?
it can
it is
and here we are
welcome
little word
little word
diga-me uma palavra
só uma palavra
she didn’t like men with poney tails
ela não gostava de homens com rabos de
cavalo
cortes
nuances
atenção
I told you
about translating
give me
one word
just one word
that would open up
open up
explode
and multiply
sim
vamos lá
acabe comigo
a word
uma palavra
a word from you
my love
breaks me up
my love
and makes its way
my love
far inside me
sim
mas sim
she always gave him
a lot of trouble
era
uma chata
shut up
stupid
me beija
estúpido
there was this awful american
woman
who would say
she wanted to have sex
é nojento
é mesmo
but they do
they say that
those terrible
american woman
essas
mulheres
americanas
horríveis
oh
oh
Mas o céu, e essas estrias. Nada nos protege de sua beleza. Todo querer. O céu, o vinho, os livros, o amor. E o pensamento. Se não temos o pensamento, não temos nada. Nada de sua vida. Nada. Mas o pensamento, não o temos. Pensamos ele.
all the words
from all the times
from all the lives
you have lived
and will live
todas as palavras estão aí
disponíveis
elas esperam
all the words
and all the worlds
from all the lives
and all the lovers
cada palavra
está ali
não amanhã
hoje
AGORA
MARÍLIA GARCIA
Por fim, Marília Garcia, que tem construído uma obra sólida em cima da forma poética do ensaio, ou forma ensaística da poesia. Ela ganhou o Prêmio Oceanos em 2018 com Câmera Lenta (Cia das Letras) e acaba de lançar outra joia, Parque das Ruínas (Luna Parque, a editora que mantém com seu marido, Leonardo Gandolfi). O poema todo reside em desdobrar um choque entre dois lugares que existem de verdade, em Santa Teresa: o Parque das Ruínas, que é vizinho da Chácara do Céu. Como o céu pode estar perto das ruínas? Como uma coisa vai para a outra? Marília cria uma cartografia poética, em que os temas vão surgindo de vários lugares, e os lugares vão trazendo memórias e reflexões. Mesmo que os lugares estejam longe uns dos outros, as reflexões os trazem para perto.
O tom de Marília é lento, bem humorado e prosaico. Mas aos poucos vêm aparecendo rimas, que podem ser visuais ou conceituais. Sim, rimas de conceitos: um conceito que aparece, depois some, e então volta de novo. E também há refrões conceituais – ideias que vão e voltam, como se sustentassem todo o poema, assim como um refrão sustenta uma canção. A forma do poema é a forma do ensaio, e o ensaio é justamente sobre como se forma um movimento, sobre como um lugar leva a outro lugar, desde que com significação, com sentimento. Marília não hesita em trazer o leitor para dentro do poema, convidando-o a pensar junto. Neste poema, além das múltiplas referências – algo também típico do ensaio – , Marília usa o recurso de imagens: fotos, cartões postais, imagens roubadas da internet. Quase como se estivesse brincando com uma espécie de ensaio universitário.
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PROPOSTA
Bem, é isso o que você vai fazer.
Seu poema ensaístico ou ensaio em forma de poema vai aproximar pelo menos dois elementos desta lista:
um poste de rua
uma lata de lixo
um preservativo
um vaso de flores
um piano quebrado
um quadro antigo
uma roupa emprestada
um lenço de papel
uma caveira colorida
um lápis apontado
um pão de mel
um raio-X de alguém
um vidro de azeite
uma caixa de areia
um tubo de ensaio
um dicionário de rimas
uma carta roubada
um cartão sem crédito
um cão sem dono
uma cadeira quebrada
um trem de brinquedo
um pedaço do céu
Relacione duas dessas imagens à sua busca pessoal, pensando em suas próprias memórias, reflexões e citações.
Se você quiser, você pode usar imagens para construir seu texto – pode ilustrar seu texto com fotografias, por exemplo.
Mas chegue em algum lugar. Sempre se chega em algum lugar, nem que seja o lugar errado.
Cuidado com repetições e clichês.
Escreva na primeira pessoa.
Uns 6 mil toques.