Poema enquanto ensaio

Trans/Ensaio Poesia Definição de ensaio. É a mente quando brinca. Definição de poesia. É o máximo de concentração de sentido em um mínimo de palavras. Bem, partindo dessas duas definições, como escrever poesia em tom de ensaio? Se pensamos que o ensaio é a procura de uma ideia, ideias que se chocam com outras ideias resultando em uma ideia que não estava ali antes, então podemos resultar que o ensaio é um movimento de conceitos. Um movimento tateante, que só se depara com uma conclusão por acaso. Como disse antes, o ensaio sempre duvida de si mesmo. CABRAL Existem poemas rimadinhos, super metrificados, que contém em si o germe racionalista do ensaio: as suas tentativas e erros, e uma conclusão súbita. É o caso, por exemplo, de muitos poemas de João Cabral de Melo Neto, nosso poeta mais cerebral. O interessante é que, apesar de ser tão cerebral e tão afeito às ideias, reflexões e conceitos, toda a poesia de Cabral é fundamentada em coisas, em objetos físicos, em substantivos concretos. E mais: Cabral tem profunda aversão aos clichês. Ele não se satisfaz em comparar uma mulher a uma flor. Quer saber os porquês. É uma poesia explicativa. Suas comparações, por exemplo, não são líricas, e sim abstratas. Quando ele compara uma coisa a outra, destrincha a fundo quais são as camadas que ligam um objeto a outro. E o movimento deste destrinchar é o ensaio. Como “Imitação da água”, um poema dos anos 50, em que o poeta compara a mulher amada a uma onda na praia. Mas não exatamente isso: a onda está parada, pouco antes de se quebrar. Então o poeta faz várias aproximações a este conceito da onda parada, usando metáforas, aliterações, assonâncias e seu ritmo lento e venenoso. Ele quer dar conta de um paradoxo, uma onda parada, para comparar a uma mulher deitada. Assim, a onda se transforma em uma planta, em um olho, em uma montanha. O movimento do poema é ensaístico, ainda que ele use descrições. Vai até mudando o tempo verbal: a onda “parava”, depois “parara”, e depois “guardasse”, no subjuntivo. A conclusão é que a imobilidade da mulher deitada é precária, pois traz em si “o dom de se derramar”. Este dom é, para o poeta, da natureza íntima das águas. No entanto, apesar da sensualidade e da sugestão sexual, as águas podem ser traiçoeiras, “fundas”, trazendo uma “intimidade sombria” e “certo abraçar completo”, ou seja, o abraço do afogado, o abraço da morte. A cama então do início do poema se converte em um leito de morte. *
* GANDOLFI Nesse cruzamento entre poesia e prosa típico da poesia ensaística, a forma da poesia pode estar mais próxima da prosa, porém o seu berço pode ter sido a poesia. Exemplo: “A canção de amor de J.Pinto Fernandes”, de Leonardo Gandolfi, em Escala Richter (7Letras). Todo mundo sabe que J.Pinto Fernandes é o herói de um dos poemas mais famosos da poesia brasileira: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. Pois bem, quem seria esse J. Pinto Fernandes, que Drummond apresentou de propósito para dar um fim repentino à história de amor? Quem é esse personagem? Uma figura que aparece para arrumar ou desarrumar tudo? A epígrafe do livro de Gandolfi dá uma dica: “There’s a crack in everything”, de Leonard Cohen, que ele continuava: “That’s how the light comes in”. Uma rachadura em tudo é o que ele investiga nesses quatro pequenos monólogos de mal-amados (que também dialoga com outros mal-amados, aqueles do Cabral). São textos em prosa que usam a fala oral, têm a forma de depoimentos (para algum repórter?). Pessoas que, de uma hora pra outra, abandonaram ou foram abandonados. É como se o disruptivo J. Pinto Fernandes acabe se tornando uma metáfora de algo que, em vez de trazer o amor, o afasta. Uma outra versão de J. Pinto Fernandes, contada de seu ponto de vista. *
* ENZENSBERGER Como o poema ensaístico brinca com os movimentos da prosa, pode também incorporar da prosa aquilo que ela tem de ficcional: descrições, personagens, diálogos. É o caso do longo poema do alemão Hans Magnus Enzensberger, que escreveu entre 1969 e 1977 O Naufrágio do Titanic (Companhia das Letras), em que compara a queda do cruzeiro à queda da sociedade burguesa. É uma metáfora que ele vai desdobrando em muitas maneiras e registros, errando e acertando aqui e ali, até que, ao fim, o poema se torna uma pequena prosa em versos livres: *
* LESLIE KAPLAN A poeta e romancista francesa Leslie Kaplan usa a poesia para questionamentos sobre a própria busca da poesia. Ela nasceu em Nova Iorque em 1943 e vive na França desde os três anos; seu trabalho com a língua põe em jogo muitas vezes sua condição bilíngue, como neste poema reproduzido aqui sobre o beijo entre as duas línguas: translating is sexy, ela diz, buscando o ponto em que as duas línguas se encontram lá no fundo da boca – a poesia, talvez? Seu primeiro livro, L’Excès-l’usine, foi publicado em 1982. No Brasil, saiu o belíssimo romance O psicanalista (Companhia das Letras), terceiro volume da série Depuis maintenant, que conta a história de Eva, personagem que consegue, lendo e pensando nos romances de Kafka, “dar um pulo para fora da fila dos assassinos” de sua própria vida. Leslie Kaplan publica pela P.O.L. Éditeur e seu último romance, Minha América começa na Polônia, constitui um relato autobiográfico que conta a história de sua família e a sua própria – os avós poloneses, imigrantes judeus nos Estados Unidos no começo do século XX, e os pais, americanos, que foram para a Europa durante a segunda guerra e se estabeleceram na França do pós-guerra. O romance conta suas idas e vindas sobre o Atlântico, coadunando na linguagem chewing-gum e ice-creams americanos com cafés e boulevards franceses     “Translating is sexy” a poesia é um beijo entre duas línguas a french kiss ou um beijo americano buscar o ponto em que as duas línguas se encontram lá no fundo da boca ou então na superfície a ponta da língua contra a ponta da outra língua how do you say that in english? I love you that’s all and hold me tight and give it another try baby qual é o ponto de encontro the meeting point mas aí a gente pensa em carne I can’t meet you here dear meat let’s play a game sim, vamos jogar um pouco translating is sexy I know that então a boca the mouth a língua the tongue descreva a sensação ooh ooh ooh descreva de verdade the tip of my tongue dear love will touch yours dear love and we will sing dear love together the tip of my tongue will touch yours we won’t sing my love we will breath my love in silence we won’t sing we will breath in silence we will live and touch slowly does the tongue have a skin? the soft skin of the tongue will rape me not rape wrap not wrap uma língua doce um pouco rugosa e não vamos falar da saliva essa substância mole e doce na boca podemos trocá-la ou talvez ela troca você como uma velha ponte mole dilui-se dentro dela ela faz você passar é uma língua uma saliva uma velha ponte mole ela leva você ela faz você passar but say it again the soft skin of the tongue some thing soft and pointed how is that possible it is say it and do it you do it to me I’ll do it to you again and again till silence how is silence possible the soft skin of silence it is soft silence pointed silence can silence be a bridge? it can it is and here we are welcome little word little word diga-me uma palavra só uma palavra she didn’t like men with poney tails ela não gostava de homens com rabos de cavalo cortes nuances atenção I told you about translating give me one word just one word that would open up open up explode and multiply sim vamos lá acabe comigo a word uma palavra a word from you my love breaks me up my love and makes its way my love far inside me sim mas sim she always gave him a lot of trouble era uma chata shut up stupid me beija estúpido there was this awful american woman who would say she wanted to have sex é nojento é mesmo but they do they say that those terrible american woman essas mulheres americanas horríveis oh oh Mas o céu, e essas estrias. Nada nos protege de sua beleza. Todo querer. O céu, o vinho, os livros, o amor. E o pensamento. Se não temos o pensamento, não temos nada. Nada de sua vida. Nada. Mas o pensamento, não o temos. Pensamos ele. all the words from all the times from all the lives you have lived and will live todas as palavras estão aí disponíveis elas esperam all the words and all the worlds from all the lives and all the lovers cada palavra está ali não amanhã hoje AGORA   MARÍLIA GARCIA Por fim, Marília Garcia, que tem construído uma obra sólida em cima da forma poética do ensaio, ou forma ensaística da poesia. Ela ganhou o Prêmio Oceanos em 2018 com Câmera Lenta (Cia das Letras) e acaba de lançar outra joia, Parque das Ruínas (Luna Parque, a editora que mantém com seu marido, Leonardo Gandolfi). O poema todo reside em desdobrar um choque entre dois lugares que existem de verdade, em Santa Teresa: o Parque das Ruínas, que é vizinho da Chácara do Céu. Como o céu pode estar perto das ruínas? Como uma coisa vai para a outra? Marília cria uma cartografia poética, em que os temas vão surgindo de vários lugares, e os lugares vão trazendo memórias e reflexões. Mesmo que os lugares estejam longe uns dos outros, as reflexões os trazem para perto. O tom de Marília é lento, bem humorado e prosaico. Mas aos poucos vêm aparecendo rimas, que podem ser visuais ou conceituais. Sim, rimas de conceitos: um conceito que aparece, depois some, e então volta de novo. E também há refrões conceituais – ideias que vão e voltam, como se sustentassem todo o poema, assim como um refrão sustenta uma canção. A forma do poema é a forma do ensaio, e o ensaio é justamente sobre como se forma um movimento, sobre como um lugar leva a outro lugar, desde que com significação, com sentimento. Marília não hesita em trazer o leitor para dentro do poema, convidando-o a pensar junto. Neste poema, além das múltiplas referências – algo também típico do ensaio – , Marília usa o recurso de imagens: fotos, cartões postais, imagens roubadas da internet. Quase como se estivesse brincando com uma espécie de ensaio universitário. *
* PROPOSTA Bem, é isso o que você vai fazer. Seu poema ensaístico ou ensaio em forma de poema vai aproximar pelo menos dois elementos desta lista:
  • um poste de rua
  • uma lata de lixo
  • um preservativo
  • um vaso de flores
  • um piano quebrado
  • um quadro antigo
  • uma roupa emprestada
  • um lenço de papel
  • uma caveira colorida
  • um lápis apontado
  • um pão de mel
  • um raio-X de alguém
  • um vidro de azeite
  • uma caixa de areia
  • um tubo de ensaio
  • um dicionário de rimas
  • uma carta roubada
  • um cartão sem crédito
  • um cão sem dono
  • uma cadeira quebrada
  • um trem de brinquedo
  • um pedaço do céu
Relacione duas dessas imagens à sua busca pessoal, pensando em suas próprias memórias, reflexões e citações. Se você quiser, você pode usar imagens para construir seu texto – pode ilustrar seu texto com fotografias, por exemplo. Mas chegue em algum lugar. Sempre se chega em algum lugar, nem que seja o lugar errado. Cuidado com repetições e clichês. Escreva na primeira pessoa. Uns 6 mil toques.

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