Morreram de overdose e não são mais meus heróis

Conheci o mar na Bahia. Verdade que eu já era batizada em Paquetá, mas lá eu era muito pequena para entrar no mar. O Rio ainda era a capital do país onde se reuniam os intelectuais que tentavam criar uma identidade nacional e a Bahia era um lugar utópico onde se encontravam muitos artistas e passávamos o tempo todo visitando amigos interessantíssimos e vendo várias artes.

Eu amei o mar.

Depois de Rio de Janeiro e Bahia, fomos morar em Roma por dois anos, e foi aquele pileque de igrejas, Leonardos da Vincis , Raffaellos, Michelangelos, Berninis, Botticellis, ruínas, túmulos e o mar, o Mediterrâneo , Capri, Viareggio…

Quando voltamos ao Brasil eu já era uma menina que entendia um pouco mais as coisas. Falava se muito em reforma agrária e eu perguntei ao meu pai o que era – “ah! É uma reforma muito grande!” respondeu ele. Eu fiquei achando que “agrária” era um superlativo , tipo “vou fazer um desenho agrário”, querendo dizer “um desenho muito grande”. O que eu sei é que tanto discutiram a tal reforma que um dia amanheceram tanques do exército no centro da cidade de São Paulo e meus pais ficaram com medo e me disseram que qualquer pessoa poderia ser presa mesmo sem razão nenhuma. Aliás o pai da minha amiga, aquela que tinha as mais lindas bonecas Barbie, era senador e foi preso, lembro que passamos a noite com a família dele, em solidariedade.

O tempo passou, minha muito querida madrinha, que tinha uma galeria de arte muito moderna em Copacabana, comprou uma ilha na baía da Guanabara que era o meu sonho, onde eu passava os dias olhando o mar, vivendo de acordo com a maré e as mudanças do vento. Ainda eram os anos 60 e o mundo parecia caminhar para uma revolução de costumes . Tudo o que eu queria, além de olhar o mar, era estar na moda, ouvir música pop e usar roupas psicodélicas indianas, eu sentia que estava na minha hora de ajudar a criar a identidade nacional junto com a tropicália que misturava rock com Vicente Celestino. Tive um momento de pura alegria ouvindo “2001” , a música do Tom Zé com os Mutantes que misturava viola caipira e psicodelismo.

Então , logo em seguida, veio o AI5, o fim das liberdades democráticas e o mundo ficou cinzento. As pessoas andavam sorumbáticas pelos cantos , com medo. Acabou a música, acabou qualquer coisa parecida com movimento cultural. Bem na minha hora de entrar em cena. Foi frustrante. Logo em seguida começaram a morrer meus ídolos, primeiro o Brian Jones, depois o Jimi Hendrix, logo em seguida a Janis Joplin e um ano depois o Jim Morrison, que eu amava. Me senti roubada e triste.

Uma década depois, quando assassinaram John Lennon, no mesmo dia se matava de overdose o Darby Crash, um punk da Califórnia que buscava a fama romântica do artista incompreendido. Ele tinha minha idade. Ele se matou no mesmo dia que assassinaram John Lennon, repito , pra deixar bem claro que ninguém ficou sabendo, minha geração era mesmo condenada ao ostracismo, não importa o que fizesse.

No entanto, quando Kurt Cobain se matou, não achei romântico, fiquei com pena e fiquei com raiva. Comecei a me irritar com o endeusamento ao artista incompreendido que se mata. O culto a Van Gogh tem muito disso, teve uma vida miserável, pintou coisas lindas e ninguém entendeu. Depois de morto o artista não pode mais chatear, porque artista é chato, né? então todos podem endeusar e lucrar com ele.

Valorizo David Bowie que soube usar a própria morte e fazer dela um espetáculo. Valorizo Iggy Pop que virou o tiozão punk velho e eu juraria que ia morrer em 1973.

Nos anos oitenta muita gente da minha idade virou star, a Madonna, Duran Duran….e eu comecei a não me importar tanto, a democracia voltou, as bandas legais começaram a vir fazer show no Brasil, diversos amigos estavam fazendo sucesso na música e nas artes, o mundo começava a ser meu também.

Nos anos dois mil inaugurei meu próprio espaço, a galeria Choque Cultural que foi um grande centro de experimentações artísticas e reuniu gente de todas as vertentes alternativas, e eu dei uma bela banana para os anos 60 que tanto tempo endeusei.

Mas eu sinto falta do mar. Quero de novo acompanhar o ritmo das marés e a mudança dos ventos, assistir o por do sol e deitar na areia para olhar as estrelas. Será que um dia eu vou conseguir?

Deixe um comentário

Design a site like this with WordPress.com
Iniciar
close-alt close collapse comment ellipsis expand gallery heart lock menu next pinned previous reply search share star