
Passei semanas com o recorte do jornal no bolso, investigando cada detalhe da foto. Comprei um desses óculos de farmácia, usei lupa, conta-fios, até um microscópio amador – que descobri na garagem, guardado por displicência ou apego, com outras inutilidades da época de adolescência. Depois de vinte e três dias, a certeza: era Sofia. A imagem genérica, ilustrando uma matéria sobre o possível fechamento do Red Light District em Amsterdam, socou minha cara e desestruturou minhas memórias. Nocaute emocional.
Depois da separação, não havíamos mais nos visto nem falado. Pensei algumas vezes em procurá-la, cheguei a arriscar algumas buscas, mas nunca tive êxito. Nada no Face nem no Linkedin. Pelo Google, ela aparecia apenas em algumas listas de aprovados em vestibulares e em uma foto já antiga, tirada durante um vernissage qualquer. Muitos homônimos, um certo medo, desisti. Às vezes ela me visitava nos sonhos: cavalgando em meio a trigo, girassóis, dourados e amarelos; correndo em um parque com as três crianças que teria tido; ou dançando com um monte de amigos em um desses festivais com bandas de nomes estranhos, jaqueta de couro, cerveja na mão. Vitrines em Amsterdam? Não conseguia entender.
Pedi afastamento na universidade, alegando problemas familiares. Uma baixa na poupança, uma passagem em dez vezes e lá estava eu em um hostel da Warmoesstraat, recorte de jornal no bolso, uma foto antiga na carteira e uma bomba-relógio no coração, cujo ritmo sincopado variava do extremo estupor a um incontível anseio. Por nove dias – nove amanheceres – subi os três andares da escada em caracol que levava a meu quarto de cabeça baixa, com os pés doendo e a esperança se dissipando. Olhava a pequena bicicleta de madeira que decorava meu criado-mudo e tentava imaginar quais caminhos Sofia teria percorrido. Uma viagem de intecâmbio que resvalou em drogas e mudou de trajetória? Falência da família? Ou apenas a constante insatisfação levada ao limite?
Foi na décima noite que, antes de deixar meu hotel para mais uma peregrinação, enxerguei pela primeira vez o número 14 naquela fotografia. 14! Estúpido! Tantos olhos para Sofia, nenhum para os outros elementos? Quase rolei as escadas. Correndo pela Oude Doelenstraat, alcancei Oudezijds Achterburgwal em busca do 14. Tinha que ser ali. Na porta, uma mulher de cabelos soltos e negros e pele alva me convidava com os olhos. Temperando meu inglês e meu alemão vacilante com algumas dezenas de euros, mostrei o jornal e a foto. Ela sorriu. “Ja, sie arbeitet hier. Komm rein.”