Saco de batata

“Mariana levou um tapa na cara e foi contar para a professora!”

Ela nunca entrou em muitas confusões. Em casa, procurava sempre não participar das brigas. Mesmo que constantes, era difícil alguém fazer a criança perder a cabeça e participar. Preferia ficar bem, com visibilidade da sua água interna. Alvoroços levantavam muita areia, às vezes bagunçavam tudo como um grande maremoto. Preferia observar, mesmo sendo bastante atingida. Bem resumiu isso a época em que dividia o berço com sua prima, na qual era constante e pacificamente arranhada por ela como cordas de um violino em uma música de ninar. Quando acumulou uns anos de vida, os irmãos resolveram contar para Mariana o que para ela se consolidou como verdade: ela teria sido encontrada em Ingolstadt na Alemanha, onde nasceu, no meio de uma plantação de batatas. Por isso era assim.

Não era barato se poupar do trabalho de defesa. Se é que se pode chamar isso de poupança, um cofrinho de pancadas emocionais. Em uma casa de espartanos arretados, ela era a boba. Como uma batata. Como uma esponja. “Mariana levou um tapa na cara e foi contar para a professora!” foi o que escutou por meses depois de um desentendimento no qual uma colega chamada Maria Julia, valente como um pequeno touro, escondeu durante a aula de artes um desenho de um outro colega que nem era de grande estima de Mariana mas que havia um potencial artístico reconhecido por ela. Ao estragar o plano de Maria Julia de esconder o papel, mostrando para Rafael que já não via mais graça em procurá-lo, instigou Maria Julia a tascar-lhe um tapão nas suas bochechas.

Diante da situação, Mariana contou à professora e Maria Julia respondeu à agressão da maneira mais burocrática possível dentro da realidade dos 7 anos. Levou uma mensagem na sua agenda para que seus pais assinassem consentindo o espírito agressivo de sua filha. E ao contar para sua família no jantar, Mariana nunca foi perdoada. “Mariana levou um tapa na cara e foi contar para a professora!” de novo e de novo. A frase vinha acompanhada de risadas e de tapinhas penosos nas costas do membro passivo da família.  “Quando alguém te der um tapa na cara você devolva em dobro!” formou-se o coro na sua consciência.

Pois bem. Lá ficava Mariana na semana seguinte, atenta para não deixar passar mais nada sem uma devida resposta. Ela não queria saber das autoridades por perto, sentia a vivacidade de uma anarquista correndo nas suas veias de 7 anos. Precisava extravasar seus monstrinhos. Deixar de ser batata. Se espremer. Decidir seus limites, o que entrava e o que saía.

Naquele ano, por obra da professora, as carteiras quadradas formavam um grande meio círculo, e claro que eram inevitáveis as richas entre vizinhos. A doce menina sentava ao lado de Caio, o maior ser humano da primeira série. Ele era um daqueles meninos com uma dose extra de testosterona, o que lhe garantia uma boa e grossa monocelha de acessório à sua máscara de valentão. Se divertiam, mas Caio era meticuloso demais com o espaço de sua mesa, como uma dona de casa com o sofá da sala de estar. E, por azar dele, o cotovelo de Mariana era no ambiente o indesejado filhote canino ganhando seus primeiros dentes.

Se o incontrolável cotovelo de Mariana passasse um centímetro da fronteira entre as duas carteiras, o que acontecia a cada alguns segundos sem que ela percebesse, ele prontamente alertava a invasão. “Tira o braço da minha mesa! Tira o braço da minha mesa!” E em um dia em que Caio não estava bem, provavelmente em uma aula de Lingua Portuguesa, empurrou o braço de Mariana com a raiva de um desses malucos que gostam de muros. Pronto, era o que Marianinha esperava por tantos dias. Ela levantou, pronta pra briga, e saltou na muralha fofa que eram as costas de Caio, muito mais alto do que ela. Escalava o menino, que levantou de pronto, e socava aquele saco de batatas sem medidas e restrições. Ela tinha perdido por completo a sua linha. E a verdade é que aquilo era gostoso.

Dona Carina, que estava do outro lado da sala, interrompeu a luta com um berro e a pegou no flagra, pendurada no pescoço já desmoralizado do grandalhão da sala. “Mariana, você está louca? O que está acontecendo?” “Apenas fazendo o que meus pais me ensinaram, Dona Carina!” – já com a voz envergonhada.

Não muito tempo depois em um recreio qualquer Miguel, um quase pré-adolescente que não conseguia por nada passar de ano já pela quarta vez, chamou Mariana de Poodle e gerou algumas risadas. Aconteceu de novo. Ela gelou e respondeu com o primeiro recurso: “Pelo menos não sou burra como você”. Ficou evidente que tinha pegado pesado demais, todos no pátio pararam e olharam preocupados para ele que cambaleou por um instante e foi embora. Mas dessa vez não foi bom, talvez necessário naquele momento, mas bom não foi. Foi a partir daí que começou a pensar enfim na agressividade como ação, como força sua mesmo, recurso para a vida. Pela primeira vez com propriedade. Ali se tornou menos batata, menos esponja.

O coitado do Caio, apesar de ser esquentado e nem tão coitado assim no seu histórico, não entendeu nada naquele dia e preferiu não se defender – do contrário talvez Mariana não estivesse mais entre nós e nem entendido sua evidente diferença entre seus familiares. De fato, extravasar era uma delícia, mas agressões físicas ou verbais descomedidas não eram a forma dela fazer isso, mesmo. Feriam mais a ela do que ao outro em forma de arrependimento. No caso do Caio, não valia a pena. E nem teria valido a pena no caso da Maria Julia. O tapa, afinal, foi o pontapé inicial para que o excesso de tolerância que a tornava uma boa batata fosse descascado. Foi a partir do tapa que ela teve que entender e encarar suas próprias formas de extravasar, de se esculpir, mesmo que ainda não tenha achado a resposta certa. O tapa foi uma nova chegada ao mundo. O segundo tapa de entrada.

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