O vingador

Com a mão dentro da calça, ele desceu do ônibus. Ao subir a calçada, escorregou um dos pés numa poça de óleo, destes que escorrem de motor, fez uma careta sem deixar transparecer se era de susto, se era de dor. Em silêncio, gesticulou negativamente com a cabeça e continuou sua breve caminhada. E aí gatinho, vem aqui, deixa eu pôr a mão aí também? Insinuou Zizinha, sua vizinha com sessenta e poucos anos, parada na esquina da viela onde moram. Sapão acelerou o passo, reprovando a proposta da senhora sem dirigir o olhar a ela. Parou em frente a seu portão e bateu com a mão direita sobre os bolsos. A outra continuava dentro da calça, na parte frontal. Retorceu o corpo e desajeitado retirou do lado esquerdo a chave, presa a um cadarço utilizado como chaveiro.

Tá com isqueiro? Perguntou Dona Neuma, sua mãe, sem tirar os olhos da tevê, enquanto ele entrou e atravessando a sala respondeu: Parei de fumar ontem, vou dormir. Subiu a escada estreita entre paredes sem reboco, com um soco abriu a porta de seu quarto e se jogou sobre a cama, atolando a cara no travesseiro. Entre gemidos abafados, sem tirar a mão de dentro da calça, demonstrando impaciência ou aflição, balançava um dos pés ainda calçado, um pouco para fora do colchão.

Estouros de rojão na rua e um vizinho grita: vai coriiinthians. Sapão se levanta, fecha a janela fazendo sinal negativo com a cabeça, pega sua toalha verde e branca e vai para o banheiro. Liga o chuveiro enquanto tira a roupa, menos a samba-canção com estampas do Mickey, e com a mão dentro dela sente a água fria escorrer pelo corpo. Encosta a testa na parede e esboça um choro. Engole ele, resiste, mas não suporta por muito tempo e solta as lágrimas. Logo os urros aparecem e são abafados pela toalha mordida. Os soluços chegam um pouco depois. Bate levemente a cabeça contra a parede algumas vezes e fala para si próprio: paciência, paciência sem passividade, paciência. Esfrega a toalha encharcada no peito e no rosto e volta para o quarto. Seca uma das mãos no lençol e acende o incenso aos pés da pequena estátua de Zé Pilintra, que repousa sobre um caixote de feira improvisado como prateleira. Pega o celular e na página de busca do Google, procura por curativo caseiro para ferimento a tiro.

Mãe, tem babosa? Pergunta por WhatsApp para Neuma, de camisola rosa cochilando no sofá. Minutos depois, sem resposta, Sapão vai até o cômodo de baixo, pega o celular de sua mãe enquanto ela dorme e volta para o quarto. Pelo aplicativo da farmácia, compra alguns itens para curativo, analgésicos e anti-inflamatórios, a debitar no cartão já cadastrado. Agachado no canto, à espera da entrega, desta vez nega com sucesso o pranto. Esboça ir pra janela, mas novos fogos de artifício e gritos da vizinhança o fazem recuar. É dia de festa para alguns.

Dona Neumaaa? Alguém chama no portão. Sapão vai às pressas retirar a entrega. Tropeça no tapete, machuca o dedo do pé, esfola o ombro na parede e desce mancando com a mão dentro da cueca ainda molhada. Pega a encomenda e acena que sim com a cabeça, quando perguntado pelo entregador se está tudo bem.

Sentado no vaso sanitário, curva-se para analisar o ferimento. Leve sangramento e um pouco de inchaço na região. Meu Cosme e Damião, murmurou inconformado com o furo. A bala pegou bem na gordurinha interna da coxa esquerda, mais cinco centímetros pro lado e estourava o saco. Seria o adeus definitivo ao sonho de ter seu primogênito, batizá-lo Alan e contar as histórias do justiceiro V. Sapão continua o procedimento de limpeza, retira dos furos os miolos de pão encharcados de sangue. Inevitável não recordar da gangue responsável pelo ataque. Quando o incidente aconteceu, a tentativa de assalto, ele acabava de sair do restaurante universitário com a mochila cheia de pães, rejeitos de alguns de seus colegas de jantar. Serviria para mais tarde, de madrugada, quando se punha a desenhar. Se você não me der, vou te matar! Dizia o franzino Philodryas, filho de um policial do bairro, se referindo ao Angola Janga que Sapão apertava contra o próprio peito. Ao lado estava Malacatifa, com um calibre 32 em punho, e outros três moleques que completavam o bando. Sem pensar outro jeito de lidar com a situação, estendeu a mão com o romance gráfico e antes que este fosse apanhado, correu. Fazendo zigue-zague e dando pulos e abaixando, lá se foi Sapão em fuga. Quando se escondeu atrás do Fusca e observou que ninguém o seguia, notou o ferimento. Num instante de desespero, abriu a mochila e pegou o que seu senso improvisador pedia. Entupiu o buraco da bala com os miolos que serviriam de ceia, amarrou a blusa na cintura, ignorou a viatura que passou na esquina e seguiu seu caminho, pressionando com os dedos o volume de trigo vermelho.

Diante do espelho, já com a ferida higienizada, tomou alguns comprimidos e vestiu sua camisa surrada do Pantera Negra. Sentiu-se forte e destemido, pronto para iniciar um plano de vingança. Pegou lápis e papel, abriu espaço entre gazes, esparadrapos e caixas de remédio sobre à pequena mesa, uma porta de guarda-roupas sobre duas pilhas de tijolos. Rabiscava sem parar um grande volume de páginas, alternando entre esboços desenhados e anotações escritas, definindo as características físicas, a personalidade e identidade de seu novo personagem. Faltava pouco para o amanhecer quando arregalou os olhos e sinalizou veemente com a cabeça, aprovando a ideia que acabava de nascer; Litoria. Esse seria o nome de seu personagem vingador. Levanta-se e abre a janela, respira fundo o ar da vitória que sente se aproximar, a virada prestes a começar. Acessa o Youtube, escolhe um álbum e bota o celular na cabeceira da cama, sobre Um pedaço de madeira e aço. Repousa encostado sobre o travesseiro e os edredons embolados. Acende uma bituca e, pensando no possível roteiro, cantarola junto os versos da música que já tocava; A guimba e a fumaça do meu cigarro, cega o olho do soldado que pensou em me ferir, com um sorriso derrubo uma tropa inteira, mesmo que na dianteira a sombra venha me seguir…

Emol

 

 

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