
Sempre gostei do jeito como ela andava. Havia algo de impreciso, um desencontro entre o ritmo dos passos e a cadência dos quadris que atingia ainda o movimento dos cabelos, compridos até quase a cintura. Passei anos tentando decifrar aquela não-sincronia. Quando caminhávamos juntos e Sofia me perguntava por quê eu estava sempre um passo atrás, alegava um espírito protetor que nunca tive – aí ela se enternecia e eu continuava minha investigação estéril.
Os cabelos. Esses eram outro espanto. Quando os vi pela primeira vez, parecia estar vendo um campo de trigo como aqueles dos filmes, milhões de fios dourados se mexendo com o vento. Lembrei daquela música, o girassol da cor do cabelo. Olhava para ela e pensava no girassol, e na luz do sol, no mar, no vento, pensava em lua, estrela, e ficava imaginando a cor desse pensamento. Concluí que era amarelo, da cor do cabelo. Aquela canção nunca mais saiu da minha cabeça. Nem Sofia.
A gente foi morar junto três meses depois do primeiro encontro. Nesse tempo, já tinha descoberto que ela detestava refrigerante e amava café sem açúcar; que as unhas dos pés estavam sempre pintadas de vermelho, e o mindinho da mão direita era um pouco torto por causa de uma queda de bicicleta aos dezoito; que os olhos azuis tinham três graus de miopia, que a risada era fácil e o sono, difícil. Sabia também que os peitos redondos e pequenos eram resultado de uma cirurgia corretiva, pois o peso dos originais faziam com que, já aos treze anos, Sofia vivesse com os ombros cortados pelas alças do sutiã.
Ela tinha entrado na faculdade de arquitetura aos dezessete, na de história aos dezenove e na de biologia aos vinte e um. Naquele momento, cursava letras, mas estava em dúvida se deveria trocar por filosofia. Inteligente, rápida, um pouco distraída e quase sempre bem-humorada. Cerveja? Pilsen. Pastel? Palmito. Suco? Verde. Tinha uma mesada poderosa, uma coleção de Chuck Taylor, uma Perfecto original (herdada da mãe e que nunca saía do corpo). Era apaixonada por Angus & Julia Stone e nunca tinha ouvido falar em Lô Borges.
– Nunca?
– Nunca… deveria?
– Clube da Esquina, Milton Nascimento?…
– Ah, Milton eu conheço, mas não me ligo muito. Esse clube é bacana? Toca MPB?
Foram os dez meses mais radiantes da minha vida. Hoje, meu pensamento é um pouco cinza, um pouco azul… e em certos dias, cortado pela lembrança daquele amarelo.