Um prato, quatro copos de requeijão.
Parece realmente impensável que ele consiga pensar em qualquer pessoa além dele. Sério. Jurei para mim mesma que nunca na minha vida me veria envolvida com um menino mimado desses. Devia ter ouvido minha irmã. Não, Luiza, ele não é bom o suficiente pra você. E eu teimosa como sempre, discordei, casei, ainda tive dois filhos com a desgraça do sujeito: para as favas com a minha juventude. O corpo que ficou todo estragado depois do parto. Volta? Não volta. Os seios tão lá, moribundos, alcançando minhas coxas flácidas. Não me arrependo. São lindos os meninos, os dois. Isso a gente soube fazer bem. Dois meninos lindos.
Três pratos de sobremesa, quatro garfos, duas facas.
Lindos mesmo, nunca pensei que a nossa combinação de genes fosse dar tão certo. De onde o Jr tirou aquele par de olhos eu nem sei dizer. Meu não era, do Flávio menos ainda. É um tom assim castanho meio mel. Clarinho, clarinho, mas marrom, com o nosso. O olho do Flávio nunca teve nada de especial. Era marrom só, o meu também. Uma coisa meio normal, meio todo mundo. A gente também nunca foi muito bonito. Claro que a gente nunca assume isso sobre si, nessa levada agora de ter que ter sempre a auto-estima nas alturas, se alguém me ver falando isso tô fodida.
Três pratos, duas facas, três colheres.
Não falo por mal não, só não éramos lá grande coisa. O Flávio tem um nariz meio torto pra um dos lados, e eu nunca consegui dinheiro pra arrumar os dentes. Até porque dente custa uma fortuna. Não faz nenhum sentido ter um negócio na boca que serve pra sua alimentação – que é a coisa mais importante – e ele arrebentar tão facilmente. Basta um chiclete depois do almoço e esquecer de escovar antes de dormir e TANÃM, cárie!
Sobre aparência, não vejo porque ficar mentindo. Minhas perninhas finas e os joelhos juntos, a única pessoa que gostava era o Flávio.
Uma panela, especialmente engordurada.
Lembro até hoje a enganação que ele era no começo. Nós dois nos conhecemos no ônibus, na saída da escola. Ele era dois anos mais velho, e naquela época pra mim não importava nem o nariz torto. Quando se está apaixonado não percebe essas coisas. Ou percebe e até acha bonitinho. É com o passar dos anos que vai notando que todo aquele charme era feiúra mesmo.
Duas frigideiras, a escumadeira, a espátula.
“Eu cuido de você, você vai ver, Luiza.” Não sabe nem juntar os pratos depois de comer. Não sabe nem passar a porra da camisa. Não sabe nem dar a porra do nó na gravata. Não sabe nem catar a porra da camisa do chão, quanto menos dar comida aos cachorros. “É que você faz tão bem.”
Eu juro que parece um plano, parece combinado. O marido da Sirlenne é a mesma coisa. Parece que combinaram, fingir que não sabem fazer nada na casa e a gente fica aqui, resignada, passando as camisas e dando comida pro cachorro. E só de acreditar que eu escolhi isso? Pra mim não parece que foi bem assim. Ninguém “escolhe” cozinhar todo dia. Não é possível. Vejo os chefs na tevê e não acredito um pingo. Mas até aí também é diferente quando tem condição né. Dá pra comprar esses ingredientes caros, que nunca nem vi vender aqui por perto, muito menos na mercearia do seu Pedro. Tudo já cortadinho naquele milhão de cumbuquinhas. Conheço nem quem tenha condição de ter tanta cumbuquinha em casa, aqui é tudo contado. Ainda mais o trabalho que não dá pra lavar! Cozinhar só é bonito quando não é arroz feijão e bife todo dia. Ai de quem reclamar. E ai de quando nem bife tem, aí é sopa. Ninguém gosta de sopa, não é possível.
Duas xícaras.
Bom mesmo era o sexo, ai o sexo. Aí hoje em dia é essa coisa, a pança de chopp não consegue nem mover, nem pelo menos tentar ficar por cima de vez em quando. Mas pelo menos isso a gente aprende, nem que seja sozinha. A gente aprende a se resolver. Porque hoje em dia, se depender dele, gozou acabou. Custava ajudar uma vezinha? Custava?