Hoje é quarta feira, mas poderia ser outro dia qualquer da semana.
13 horas. D. Luzia depois de lavar os pratos do almoço, faz alguma coisa aqui, outra ali e dirige-se à pequena sala de seu apartamento. Anda com passos curtos, balançando as ancas altas e uma pouco assimétricas. Reclama de Deus por suas dores lombares crônicas ao abaixar para pegar a costura, preparando-se para ocupar a poltrona em frente à televisão.
14 horas. Na tela passa o programa vespertino preferido que ela acompanha sem olhar, como se ouvisse um rádio. Aperta os lábios enquanto as mãos de dedos roliços manipula a agulha de tricô com agilidade. Mas isso não a impede de interagir com o assunto trazido à sua sala pela apresentadora de TV.
- Que absurdo, mas é cada uma que a gente vê, o cara não quer mais a mulher e não quer que ela tenha outro namorado, diz.
- Eu tive sorte com você, Dedé, mas se a gente se casasse hoje seria muito diferente, fala, com um sorriso enigmático.
- As mulheres de hoje também não aguentam mais nada!Só querem saber de flanar, repensa.
Meia hora depois, na poltrona de veludo gasto ela cochila com as linhas entre as mãos. Os pensamentos que costumam sair em voz alta agora se calam. A cabeça tomba sobre o peito e D.Luzia ronca.
15:00h. O celular ao seu lado sinaliza mensagens e ela acorda. Algumas amigas passam horas nesses aparelhos anunciando o fim do mundo, o avanço do comunismo, a morte da família e sei lá mais o quê. Lê as mensagens mais curtas sem óculos, mas não responde. Não tem paciência. Logo elas irão se encontrar.
– Ahh, hum, esse mundo tá perdido mesmo, para que desperdiçar tanto tempo?
15:30. Olha para o relógio antigo sobre a pequena mesa de jantar. Apanha a toalha no varal sob a janela do único quarto que bate sol naquele apartamento e se dirige ao banheiro no corredor. Ao tirar a roupa olha por cima das elevações dos seios e do abdômen meio aplainados pela idade. O piso cinza realça o brilho rosa perolado das unhas dos seus pés pequenos e chatos.
Após o banho usa um pouco de lavanda, passa o pó de arroz com validade vencida no rosto e abre as portas escuras do guarda roupa.
- Nossa, esses casacos estão meio puídos!
- Ah, hum, velho que precisa de muita coisa, pensa que não vai morrer!
Faz tempo que comprou uma roupa. Não é vaidosa, mas detesta unhas sem fazer e cabelos indisciplinados. Veste-se, e dá uma borrifada de fixador no penteado.
- Luzia Peçanha e o marido se instalaram naquela pequena cidade, na Bahia, há 20 anos, quando já estavam aposentados. Os filhos adultos ficaram em São Paulo. Ao contrário do marido, cada dia mais calado, passar despercebida era algo que não lhe fazia bem. Ali conhecia a todos.
16: 00. Chega à lanchonete onde se encontra diariamente com as amigas.
- Tudo bem, Janete, o que temos hoje, o mesmo de todo dia? diz com a risada de sempre.
A garçonete vem logo atender a velha cliente. Tem medo daquela mulher pequena de voz potente e destemida capaz de fazer um ” barraco” se a colherzinha do açucareiro estiver incrustada de açúcar. Isso lhe era insuportável tanto quanto o café servido frio. Diminuir a importância daquele fato seria não conhecer a rotina daquela mulher e a sua capacidade de se interessar vivamente por todos que lhe afetam diretamente, por tudo em seu raio de visão e, em especial, por aquilo ao alcance da sua mão. Sobre esse universo versavam as suas seguras opiniões.
A garçonete que o diga. O seu corpo avantajado não raro era motivo de riso para D. Luzia, que via no excesso de tecido adiposo, alguma culpa escondida, uma perversão não revelada.
Na mesa junto à calçada, que costuma ocupar com as amigas, ela chama a atenção para todas as pessoas acima do peso que passam, em especial as mulheres, às quais se refere de modo peculiar:
- Olha aquela gorrrrrrda, dizia prolongando os erres como o ponteiro da balança faz com os quilos.
Janete procura ignorar isso. Quando o seu pai estava no hospital e ela gastava o que não tinha com remédios, a velha cliente ouviu suas queixas com lágrimas nos olhos. Lembra que recebeu uma boa quantia do grupo de amigas, mobilizado pelos humores eloquentes da enérgica senhora.
17:30 – Hora de voltar para casa. Na padaria, pega duas sacolas de pães fresco e troca palavrinhas animadas com o dono. Ao chegar no prédio onde mora entrega uma delas ao porteiro. Ao avistá-la, o rapaz corre para o elevador, e abre a porta para ela com reverência.
- Muito boa noite, D. Luzia!
- Boa noite, meu querido, fique com Deus.
18h – Hora de rezar. Todo dia pede a Deus que a livre de tudo que detesta e que traga ao seu caminho tudo que que lhe faz bem. Assim seja. Amém.
19 h – Vai à cozinha esquentar a sopa e as torradas. Ao lado do prato, um comprimido de Rivotril. Hoje vai experimentar uma nova novela, que não tenha beijo entre pessoas do mesmo sexo, nem filhos desrespeitando a autoridade dos pais.
21 h – Espera não sonhar, nem ficar divagando. Nunca gostou disso. O remédio está fazendo efeito.