“Você é muito esquisito!”. Foram as últimas palavras daquela ruiva antes de sair batendo a porta. Arnaldo, mais conhecido como Naldo, apenas olhou. Era mais uma que não compartilhava dos mesmos hábitos. Ele pesava, “Devia ser mais explícito, mais descritivo. Fotos não bastam”, enquanto conferia seus registros fotográficos no aplicativo de relacionamentos.
Levantou do sofá e foi à cozinha pegar um pano para secar a água derramada ao lado do sofá retrátil. Deu três passos, pegou o pano de secar louça e olhou ao redor. “Que apê estranho, tudo grudado. Sala, quarto, cozinha, só faltava a privada ser no meio da casa. Não imaginei que um studio seria assim quando comprei”. De lá observou o seu ramo de pimentas verdes e vermelhas, quase intactas, não fosse pela pequena mordida que a moça havia dado após a sua insistência.
Enquanto secava ajoelhado a água derramada, lembrava do vendedor de sofá que lhe havia convencido de levar um impermeabilizante. “Não fosse ele, estaria todo encharcado.” Olhou novamente para seu ramo de pimentas, agora ali, ao alcance de suas mãos, e num movimento delicado o recolheu. Focou seu olhar no brilho encerado do vegetal, era perfeita como aquelas frutas de cera para enfeite, atraente como os lábios coloridos de uma bela mulher, parecia um sonho. Ele e o ramo, Homo Sapiens e Capsicum, feitos um para o outro, um encontro que já dura 8 mil anos e que ainda ferve o corpo.
Tal qual um casal apaixonado que se fita antes do beijo e lentamente vão cerrando os olhos com as bocas salivando ao encontro da língua companheira, Naldo mordiscou sua Jalapeña verde já mordida e, num ato de prazer, enfiou na boca metade dos 9 cm restantes e abocanhou com força. Enquanto mascava foi se deitando no chão, a endorfina liberada ainda era pouca, enfiou o que restava e ainda mordeu metade da Jalapeña vermelha. A capsaicina preenchia toda sua boca ativando cada receptor de suas terminações nervosas, seu rosto fervia, os olhos lacrimejavam no mesmo momento que seu cérebro liberava grandes quantidades de endorfina. Quando finalmente engoliu aquela conteúdo de pimentas, sorria em estado de euforia, jogado ao chão, parecia um daqueles personagens do filme Trainspotting. O ato estava consumado.
Ficou no chão por alguns minutos antes de abrir os olhos. Aos poucos foi se erguendo, caminhou pelo curto caminho até a geladeira e pegou uma garrafa de água sem gás, deu um longo gole, daqueles tipo a primeira cerveja do happy hour. Limpou a água que escorreu pela curta barba. Diante do microondas de vidro espelhado, meditou sobre o seu recém prazer com as pimentas. Passava as mãos pelo rosto e cabelos, chegou mais perto para ver a vermelhidão nos seus olhos. “Dói, mas é bom”, refletiu. “É isso!. Dói mas é bom! Vou procurar mulheres dominadoras. Palavra chave BDSM no Tinder”. Pegou o celular e alterou seu perfil. Adicionou palavras chave e trocou suas fotos de galã bom menino por outras mais sedutoras. Pelo menos ele pensava que eram.
Colocou no forno uma pizza congelada e inaugurou seu novo perfil. Por 25 minutos arrastou o rosto de mulheres para a esquerda e direita, quanto mais vermelha melhor. “Quero. Não quero. Quero muito. Quero mais!”. Quando o timer do forno apitou, simultaneamente, uma mensagem de match tocou no aplicativo. Seu coração disparou. Não por causa do match com uma ruiva vestida de preto e maquiagem carregada, mas por conta das pimentas. Não tinha mais. Ele havia comido tudo.
Naldo respirou fundo para se acalmar, pois estava tenso com essa nova possibilidade de relacionamento. Abriu outro aplicativo, agora o de entregas rápidas. Pediu então 2 vinhos tintos chilenos, 6 Malaguetas bem vermelhas, 2 Jalapeñas Verdes, 1 Cumari-do-Pará amarela e 1 Habanero, preferencialmente cor chocolate. Precisava de intensidade, igual daquela vez quando pulou de paraquedas ou do dia bungee jump. Fez o pedido, fechou essa janela e iniciou uma breve conversa com a ruiva. Marcaram um encontro para as 00h30. Ao sentir cheiro de queimado lembrou da pizza. Correu para tirá-la do forno, desligou o gás, abriu a tampa e sem perceber meteu a mão desprotegida na forma de alumínio. Reação em cadeia. Endorfina no corpo. Sorriu.
As 23h36 a campainha tocou. Com dois dedos enfaixados desceu para atender o rapaz do delivery. Ficou bravo ao ver que as Habaneros não eram de cor chocolate.
Comeu dois pedaços da pizza com pedaços de Malagueta e foi para o banho.
00h20 seu coração começou a bater no ritmo de um dance eletrônico. 00h29 o ritmo já era bate estaca dum Drum´n Bass. 00h34 a campainha tocou novamente. Ficou gelado, duro, medo. Jogou pra dentro da boca uma Cumari-do-Pará como se fosse balinha de hortelã e desceu com a única questão que vinha lhe apavorando: “Será que ela gosta de pimenta?”.