
O personagem é o centro de toda obra de ficção. Você pode ter ideias, pode fazer boas descrições, boas reflexões, boas sequências de ação; mas se não tiver um personagem cativante, sua ficção desanda.
Eu uma ficção breve, na maioria das vezes um só personagem é o eixo da narração. Quanto mais personagens, mais longa e dispersa será a narrativa.
Desde o EM Forster, a teoria literária observa dois tipos de personagens: os planos e os esféricos. Em Aspectos do Romance (Globo), o escritor e crítico inglês cunhou esta definição que vem norteando os estudos literários, ao dividir a literatura em obras centradas em personagens rasas ou profundas.
Durante muito tempo teorizou-se um juízo de valor em relação a cada tipo de personagem. No clássico O Personagem da Ficção (aqui dá pra baixar um pdf), Antonio Candido defende os personagens esféricos em detrimento dos rasos – usando para isso o exemplo de Riobaldo Tatarana, herói de Grande Sertão: Veredas e um dos grandes personagens da literatura brasileira em todos os tempos. Guimarães Rosa construiu um personagem multidimensional, que em múltiplos aspectos demonstra ter uma face psicológica, outra social, outra metafísica – todas unidas através de uma linguagem de imensa complexidade.
Com o crítico literário inglês James Wood, essa dicotomia plano/esférico é quebrada na medida em que o personagem tem a profundidade que sua obra requer. Não adianta nada criar um personagem esférico e atrapalhar, por exemplo, a narrativa incessante de um filme de ação ou de uma história em quadrinhos de super-herói. Por outro lado, há muitos escritores de vanguarda que utilizam personagens planos, quase caricatos, no limite do estereótipo – como os personagens dos contos de André Sant’Anna, por exemplo.
Abaixo, relaciono duas maneiras de construir um personagem. Marcos Rey (O Mistério do 5 Estrelas), em seu clássico O Roteirista Profissional (Ática), explica que um escritor deve saber de tudo de seu personagem – mesmo que vá usar só uns 5% da informação. E sugere um questionário curioso.
Já James Wood, em seu incontornável Como Funciona a Ficção (Sesi), explica sua teoria de “engate” de personagem: ele deve aparecer já em plena ação, já em “funcionamento”, para que o leitor acredite nele.


















E abaixo relaciono dois contos em que temos dois tipos de construção de personagem. O primeiro é o estranho “Onze filhos”, de Franz Kafka (está em Um Médico Rural, Cia das Letras), em que um pai descreve de modo exaustivo as características psíquicas e morais de seus onze filhos, relacionadas a seu físico de modo quase lírico, e quase sempre estático – não conta histórias sobre eles, mais estabelece ângulos filosóficos de suas personalidades. Ao fim, acabamos conhecendo mais o pai do que os próprios filhos (num desenvolvimento do ditado “o que Pedro me diz de Francisco me diz mais de Pedro do que de Franciscos”).
A seguir, um texto absolutamente diferente: “O cobrador”, do livro homônimo de Rubem Fonseca. Narrado na primeira pessoa, é um texto brutal e ao mesmo tempo engraçado, político e lírico. Um homem anônimo resolve cobrar uma impagável dívida social e se torna uma espécie de terrorista, eliminando aleatoriamente ricos – mas ao mesmo tempo se envolvendo com uma garota aristocrata, a quem reserva seus dotes mais românticos e líricos. Um personagem difícil de enquadrar, charmoso e ao mesmo tempo horrível.
A linguagem urbana de Fonseca, talhada nos contos lançados nas décadas de 60 e 70, influenciou de modo irredutível a literatura brasileira, que até então estava dividida entre a linguagem barroca e onívora de Rosa e a psicologia densa e abstrata de Clarice Lispector. Fonseca “limpou” e libertou a linguagem da literatura brasileira. Mais que isso: já nos anos 60, anteviu a epidemia de violência que hoje naturalizamos no Brasil.














PROPOSTA
E é isto o que você vai fazer. Você vai inventar um personagem.
Mas você nem mesmo precisa contar uma história completa. Vá descrevendo, física e psicologicamente, seu personagem, enquanto ele faz alguma coisa. Sim: seu texto estará estruturado sobre uma simples cena do cotidiano:
- seu personagem cozinha
- seu personagem faz a barba / faz uma maquiagem
- seu personagem brinca com um filho pequeno
- seu personagem dirige o carro pelo trânsito de SP
- seu personagem flerta com outro personagem
- seu personagem atravessa a cidade em transporte público
- seu personagem vai a uma festa
- seu personagem faz compras
- seu personagem vai ao banco
- seu personagem é assaltado
- seu personagem está doente
- seu personagem faz sexo
Você pode…
- narrar na primeira pessoa – e, como se viu em Fonseca, isso é interessante porque na própria construção da linguagem já se dá a estrutura da personalidade (em Lacan, o inconsciente se materializa como linguagem);
- ou você pode narrar na terceira pessoa, como se estivesse observando seu personagem do lado de fora, espionando, namorando, stalkeando.
Assim, você pode…
- olhá-lo de longe, de cima, como se você fosse Deus;
- ou pode olhar mais de perto, como se estivesse interessado nele, como se o visse por um binóculo ou pelo buraco da fechadura;
- ou você pode ser bem íntimo dele, como se estivesse pousado em seu ombro, olhando direto pra dentro de seu cérebro.
De novo: procure não usar advérbios; em vez de usar adjetivos, prefira símiles, metáforas e comparações; economize nos verbos; use diálogos; alterne descrição e reflexão; foque sempre na ação – vamos conhecer o seu personagem através do jeito como ele se move, se mexe, gesticula, anda, fala, ouve, sente o mundo.
Em uns cinco mil toques.