Seu olhar estava fixo na boca do cano a espera do berro final.
Muitas informações se passavam em sua cabeça naquele momento, o momento final.
O que levaria uma pessoa a balear outra? Na realidade muitas coisas levam uma pessoa a matar outra. Mas ali, naquele lugar, naquela situação, seria um motivo? O estresse é um motivo claro e um facilitador, e aquele homem, portador daquele revólver, com certeza estava estressado, e muito!
Ele era conhecido como Gordinho, um apelido que os garotos da banda haviam lhe dado por não lembrarem de seu nome após o primeiro encontro que tiveram em seu estúdio.
Emoldurado pelo batente da porta e contra a luz branca que vinha de seu interior, o Gordinho já havia tomado sua decisão e sem vacilar muito, pois ele vacilou por um instante com a arma em punhos, pressionou o gatilho.
O estampido ecoou pelo corredor que levava para a área mais abaixo da casa, o lugar onde tiveram o primeiro encontro, a sala de estúdio mais ampla e moderna do local, o mesmo lugar que anteriormente a banda esperou pacientemente pelo atraso que o Gordinho causou fazendo as instalações finais de cabeamento.
Assim como a calmaria após a tempestade, o silêncio seguiu o rugido. Em choque, o baixista da banda correu os olhos corpo abaixo a procura do ferimento. Peito, barriga, pernas, nada, nem uma mancha de sangue, nem um ferimento. Quando finalmente se moveu foi para olhar para trás a procura do chumbo na parede, a relíquia daquele milagre.
O silêncio finalmente foi rompido por xingamentos e novas discussões. A esposa do Gordinho já estava lá tentando acalmar e retirá-lo de mais problemas. Uma outra banda, o estopim sem culpa de todo o evento, observava calada e atônita aquela situação. Sim, sem saber, no dia em que agendaram um horário para fazer um som, eles haviam preparado a cena de um crime, ou quase isso. Seu horário de início coincidia com o término da banda VdO, a do baixista, e o atraso da saída, o tempo de uma última música mais a arrumação, por volta de 5 minutos, fez com que o Gordinho entrasse aos berros na sala acústica, julgando e desqualificando as atitudes e as músicas do grupo e seus quatro integrantes.
A primeira parte das discussões havia começado ali, e no meio daquela disputa o baixista lançou a frase de efeito, “então vamos embora sem pagar!”. Nunca digam a um estressado homem de negócios que você não irá pagá-lo. É algo como roubar o precioso anel do Sméagol, aquele monstrinho do Senhor dos Anéis. Eles irão se transformar.
Passada toda aquela confusão e pagamento feito pelas 2 horas de ensaio, a banda ruminava na rua em frente a casa-estúdio sobre a situação que haviam acabado de viver. Muita adrenalina no sangue, droga natural, quando avistaram um highlight vermelho e azul piscando como porta de bordel numa noite de São Paulo. Era uma viatura da PM descendo a rua. Pararam a polícia e relataram o acontecimento, principalmente o tiro e a arma. Na verdade só a parte do tiro e da arma. Mas sabe como é, mulecada jovem, branca, querendo fazer barraco, logo os PMs dispersaram a turma, “se entrarmos lá iremos todos para a delegacia, daí vocês passarão a madrugada toda por lá.” Foram embora.
Como de costume após o ensaio, a banda se sentou num bar próximo, este a beira de uma grande avenida, e pediu algumas cervejas. O álcool ia descendo e se misturando à derrota. Um único pensamento corria como ácido a massa cinzenta do baixista, “aquele filho da puta me deu um tiro”. Mais outro gole de cerveja e enfim uma epifania! “O carro do gordinho está na garagem do lado de fora da rua”. A decisão foi tomada e um plano traçado. Se aquela bala era falsa, a resposta será concreta.
Cerveja paga, todos embarcaram no Possante, uma Quantum antiga repleta de afeto, herdada pelo vocalista da banda, e agora máquina da justiça. Cada um toma o seu lugar. O motorista não sairá do carro, o motor ficará ligado, a ação terá que ser rápida e sem erros. Adrenalina, álcool e sangue, um coquetel molotov que explode no peito daqueles jovens. Curva após curva a casa se aproxima, cada rua que fica para trás desperta diferentes emoções, não tem volta, o Possante estaciona na frente do alvo. Hora do show.
Guitarra salta primeiro e com uma palheta de pedra inicia o ato com um riff agudo na lateral esquerda do Peugeot preto com o vocalista vindo na sequência e, improvisando, arrisca uma letra na tampa do porta malas. O baixo a distância mantém o tom enquanto a bateria segue no ritmo dos pistões. No refrão, guitarra e vocal em sintonia trabalham na traseira do carro até o solo da guita que entra com uma banana no escapamento. No acorde final, a garagem é invadida por baques secos de pedregulhos que saem dedilhados da guitarra e pelo vocal, até que o baixo solta seu mais pesado grave de concreto, que voa atravessando a rua e explode no vidro traseiro. O Possante canta pneu e rasga rua abaixo na pulsação de um Motörhead.
De volta ao bar, sorriso estampado, uma saideira e a sensação do dever cumprido.