A investida da mula-manca

Estava completamente embriagada, saindo em direção ao carro – o que de fato seria uma péssima escolha – se ainda estivesse apta a fazer escolhas naquela altura da noite. Depois de um final de ano brutal que incluiu sua primeira exposição individual – pouco divulgada e muito esvaziada, a descoberta de um nódulo na mama, uma situação de assédio com um galerista, um pé na bunda, uma obra plagiada por um suposto amigo, uma anestesia de dentista que atingiu um nervo e deixou seu queixo formigando por três meses e uma festa em que encontrou todos os seus ex de uma vez só, ela não se encontrava mesmo apta a fazer escolhas. Estava mais carente que nunca.

Há um ano que havia decidido mudar para São Paulo, mas nunca se sentiu pertencente ao lugar novo. “Tem que ir para São Paulo com um plano” foi o que lhe disseram, e isso ela tinha. Tinha começado o mestrado, mas seu orientador parecia mais interessado em seus próprios monólogos internos. Tinha conhecido um monte de gente nova, todos frios e distantes. Tinha se mudado para o mesmo apartamento de sua irmã, e se viu pela primeira vez dona de casa. Nada ia muito de acordo com o esperado. Não saiu de Brasília porque desgostava da sua vida lá mas por uma ocasião do destino, e no passar de dois anos viu-se distanciar de tudo aquilo que lhe era caro, sem ganhar muita coisa em troca. 

Era antevéspera de Natal quando decidiu sair da festa completamente embriagada em direção ao carro. Não que ninguém decida qualquer coisa nesse estado de embriaguez. Devia ser por volta das duas da manhã. Lembrou de sua mãe dizendo que amanhã todos tinham que acordar cedo pois iriam de carro – aquele mesmo carro – voltar para São Paulo para o natal da família, para passá-lo junto da irmã que ficou. Então saía da festa um pouco a contragosto. Segundo o relógio, daqui a três horas teria que acordar, o que parecia difícil já que não havia nem começado a dormir. Estava cansada, mas ficaria um pouco mais. Na festa tinha encontrado Theo, que era muito amigo daquele que tinha lhe fornecido o pé na bunda e algo nela queria fazê-la sentir vergonha pela manhã. Auto-sabotagem.  

Saiu da festa com o Theo completamente embriagada em direção ao carro quando ouviram uns gritos, algum xingamento genérico direcionado a ele. Ao passo que disse vamos embora, ao rapaz faltou a reação. Eram dois. Puxaram ele pro lado e ele caiu na grama. Ela pensou numa fração de segundo: ou corro e deixo ele aí pra se foder ou parto pra cima. E decidiu ir bater nos rapazes. Como já disse, uma noite de escolhas ruins. Nisso chegaram duas garotas. Uma delas usando uma mula-manca vermelha. Puxaram ela pra trás. Estava escuro. Enquanto uma socava sua face a outra tentava arrancar sua bolsa, que ela agarrava com todas as forças. Conseguiu ainda enfiar um chute aqui, um soco acolá. O tempo dilatou-se.  Sempre quis saber como se sairia numa briga de rua, foi bom para perder a prepotência. Enquanto estava caída perguntava ainda por quê eu, por quê eu, e as meninas gritavam vadia desgraçada vagabunda. Pareceu tudo meio bagunçado na coordenação entre braços e pernas esperneantes. Até que acertaram-lhe o queixo e levaram sua bolsa, com as chaves, o documento, a carteira e o caderninho de desenho. 

Depois de uns minutos apareceu o Theo, você está bem? Ela quase não conseguia responder, faltaram as palavras. Perguntou se ela queria uma água, e ela riu-se dizendo que eles não tinham como pagar. Encontraram um casal de conhecidos que pagou água para os dois. Falaram com uns policiais que estavam por ali fazendo uma ronda, mas nada aconteceu, nada fizeram. As palavras estavam encontrando o caminho de volta para a sua boca e ela agora não só falava como tagarelava sem parar, falando mal dos policiais, que de nada adiantaram, e dos assaltantes que ela não pensava em criminalizar. Essas coisas acontecem, repetia tentando acreditar, culpando o capitalismo por tudo agora num monólogo enraivecido que poucos conseguiam acompanhar. Lembrou-se então da chave do carro dentro da bolsa, e que alguém poderia aparecer a qualquer momento disparando o alarme, pronto para levá-lo também. A essa hora a adrenalina pulsava no seu sangue como no pescoço de uma pessoa obesa comendo torresmo, e poucos segundos depois ouviu o apito do alarme. Saiu correndo em direção ao carro furiosa, e viu um morador de rua com a chave na mão. De quem é esse carro? Calma, calma. DE QUEM É ESSE CARRO? Nisso chegaram correndo os amigos atrás dela e o homem se viu pressionado a devolver sua chave. Sentiu-se esperta, pelo menos isso. 

O Theo teve a brilhante ideia de ir na casa dos pais no carro dos amigos buscar a chave reserva dele, com medo de ter o seu carro roubado também. Já haviam passado por tanto numa noite só e em solidariedade, e embebida da sua pequena vitória ela resolveu ir junto. No banco detrás ela ria inconsolavelmente, ainda a adrenalina descontrolada no seu sangue. Recontava várias vezes a história, a ponto de gargalhar, lembrando-se da mula-manca vermelha da moça. O sangue quente também imbuído da carência aumentou exponencialmente sua libido. Ela e Theo se amassavam no banco de trás, com uma fúria descabida. A casa dele ficava a pelo menos meia hora de distância, então mais uma hora para ir e voltar, se deu conta. Estava mais tarde do que pensava. Voltando ao lugar da festa o carro de Theo já tinha sido levado pelos assaltantes. 

Ela, cansada e preocupada com o horário pegou o carro e voltou para a casa dos pais. Lá chegando foi forçada a tocar a campainha, não tinha as chaves de casa. Já passava da hora de acordar. Sua mãe atendeu a porta, de camisola e olheiras, onde você estava? Ela, de joelhos sangrando, conta a história e pela primeira vez chora um pouco. Sua mãe lívida responde “É bom para você aprender que o mundo não é a disneylândia, Samantha”. Depois busca consolo na irmã quando liga para avisar que vão se atrasar “Em pleno 2016 você sai de carro numa noite em que sabe que vai beber?” E o pai, depois que ela brinca sobre a chatice que é tirar uma foto 3×4 para renovar a carteira de motorista “Isso não é hora para suas ironias”. 

Eles vão então à polícia, cancelam o cartão, vão-se embora para São Paulo passar o Natal, atrasando a feitura da famosa farofa do seu pai e da entrada do leitão no forno. Tomou um dramin e dormiu todas as doze horas seguintes.

Estava completamente embriagada, saindo em direção ao carro ao final de uma noite terrível de um ano terrível. O assalto tinha sido só mais um assalto, como esses que inevitavelmente acontecem a todos que decidem habitar cidades povoadas demais. Depois disso nunca mais veria o Theo. As feridas no corpo, os arranhões e hematomas sairiam com o tempo, e mesmo poucos dias depois encontrariam na lixeira até sua carteira com os documentos e o caderninho de desenhos que ela carregava para cima e para baixo. Tudo daquilo passaria, como se nada houvesse de fato acontecido. Sobrariam para ela somente umas pequenas conclusões: 

Agora já sabia como reagiria a um assalto, como de fato reagiu, o que parece bem perigoso; Conheceu o poder afrodisíaco da adrenalina no sangue; Parou um pouco de ter pena de si mesma e entendeu o quão risível é a vida, basta estar vivo; E, finalmente, parou de querer voltar à cidade natal e viver as coisas que haviam ficado pela metade. A série de incidentes a fizeram querer finalmente cortar o cordão umbilical que a mantinha todo esse tempo presa a Brasília. Não fosse essa série de ocorridos, e não tivessem esses ocorridos terminado de maneira tão abrupta talvez passassem meses ainda para que decidisse se desligar de lá. Aprendeu que para habitar um lugar é preciso estar lá. Agora quando brasilienses perguntam para ela se não tem medo de andar à noite em São Paulo, se não é perigoso, ela responde: Olha, aqui nunca me aconteceu nada.  

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