De vez em quando na Brigadeiro

De vez em quando eu me desligo na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Um dia quase fui atropelada, não vi o ônibus chegando. São muitos os pontos de ônibus, muita gente espera pensando na vida.
De manhã está todo mundo se preparando para o dia, dá pra ver a expectativa no rosto. Na hora do almoço a avenida fica lotada. Pessoas entram e saem dos bares e restaurantes. Há muitos árabes, um deles é melhor, compro esfihas pra levar pra casa. No fim da tarde tá todo mundo aliviado; mais um dia, não importa se bom ou não, terminou.
Tem muita farmácia ali, umas quatro entre a Avenida Paulista e a Alameda Ribeirão Preto. E tem o Supermercado Extra, grande demais – nunca vou lá, tenho medo de me perder. Do outro lado da Paulista está a Livraria Martins Fontes, em uma galeria, dividida em três loja, uma para livros em geral, outra para livros de arte, arquitetura, culinária, outra para livros técnicos de informática. Um colega meu sempre vai lá, fica perto dos livros de política e filosofia. Quando não escapamos um do outro cumprimentamo-nos constrangidos. Mas relaxamos, ele e eu temos a mesma compulsão, somos cúmplices. Na outra galeria ainda, atravessando a rua, está o Sushigen, restaurante japonês do Shimizu, que morreu faz um tempo. Acompanho a história do restaurante, agora o filho dele veio do Japão pra cuidar. A Conectas, ONG de direitos humanos, fica na galeria, e a minha dentista também, assim como o Correio de onde envio meus livros para as pessoas quando tenho tempo, lá a fila é sempre grande.
Voltando ao lado que vai para o centro está a igreja, soberana. Eventualmente eu entro e rezo um pouco, ou entro e saio, ou penso, ou nada. A igreja é um lugar onde se pode descansar, está sempre fresca. Do outro lado estão os bares, as tortas doces e velhas expostas nas vitrines, pessoas dormindo na calçada, nunca dá pra ver o rosto e se desse ninguém olharia porque é triste ver. Não dá pra ver o rosto porque elas se cobrem bem.
Quando caminho a pé pela Avenida Paulista para o Conjunto Nacional passo pela Gazeta, pelo cinema, pelo teatro, e, aos poucos a cena muda, as pessoas não dormem mais na rua, só vendem coisas diversas, cachecóis ou colares ou pinturas. E há muitas bancas de jornal que vendem de tudo, até jornal. E filmes de DVD. E livros.
Sempre trabalhei no Centro, então a Brigadeiro pra mim é muito familiar, consigo quase meditar ali. É um estar e não estar, o pensamento em um lugar e os pés no chão. Depois de um tempo fico invisível: preciso muito desses intervalos.

Deixe um comentário

Design a site like this with WordPress.com
Iniciar
close-alt close collapse comment ellipsis expand gallery heart lock menu next pinned previous reply search share star