Fire Play

Tá tudo esfumaçado e eu ainda meio chapado não consigo distinguir. Parece que vem da cozinha. Parece que dormi demais. Parece que bebi também. Minhas mãos pra trás me dão agonia. Essa tua fantasia de me ter amarrado, depois de acendermos aquele prensado, me pareceu boa só no momento. Mas não lamento, pois recordo bem da sua língua em minha virilha e como brilha seu olhar malicioso botando lenha nas sensações. Recordo, por hora, mas o que me queima agora são outras provocações. Acabo de perceber que nossas posições que você tanto adora ver por outros ângulos no espelho, dão lugar a tua mensagem escrita a batom: Dom, você apagou depois de gozar, agora fica ai amarrado esperando eu voltar. Fui comprar mais chá e fruta, vê se não surta quando acordar. Assinado: A Senhora.

Boba, nem de Alencar eu gosto. Aposto que esqueceu algo no fogo antes de sair. 

Aos poucos vou me sentindo dentro de uma cuscuzeira, que secou a água e continua sobre o fogão aceso. Ainda ileso, mas em meio a tanta fumaça que se alastra pelo apartamento, um juramento ou testamento é o que parece me restar como ação. Brincadeira. Besteira minha. Herdei de família materna isso de fazer piada com coisa séria.

E parece mesmo que tá ficando sério. É a primeira vez que vejo sua calcinha pegar fogo sem seu corpo dentro. E ali perto, no canto do quarto, jogada ao chão com uma parte queimada, a camisa retro do glorioso. É de goleiro com símbolo no meio. Ao lado dele, quase sumindo, a marca da saliva, memória viva dos meus dentes em teu mamilo. Agora, nem fico com raiva e até esboço um sorriso sem graça, lembrando você, toda palhaça, fazendo verso na frente da tevê: eu sou melhor do que esse tal de Felipão, sou verdadeiro amor, Palmeiras é só paixão. Né coração?

Até hoje acho que o Dudu perdeu aquele pênalti porque você não me deixou ver a cobrança.

Tai, coisa que nunca houve em nossa relação; cobrança. Embora ainda me queime o peito, como o pedaço da cortina em brasa que acaba de cair sobre mim, aquela noite que você saiu com seu vizinho. O quietinho, perigoso. Você voltou com uma marca no pescoço e não me olhava nos olhos. Se não fosse nosso trato, meu relato seria de traição. Mas como poderei te condenar? Assim como dizia o vinil que agora derrete sobre a radiola velha; se é infinita tua beleza, como podes ficar presa que nem santa num altar?

Agora, olha eu, quem diria, logo eu, aqui pregado numa cruz igual Jesus amarrado numa poltrona pesada. Seria de dar risada se não fosse agoniante. Imóvel como um santo, adiando o pranto do desespero, que vem longe, sem disfarce, sussurrando a frente de um cavalo baio sem face. Sem crença nenhuma além dos meus discos empenando na prateleira, que já esboça chamas, preciso de algo pra me apegar. Como último recurso preciso inventar um curso pra minha fé. Se é assim, me apego a você. Sim, você. Meu melhor motivo pra levar esta vida que não vale os humanos que engole.

Sobre a cama, aqui do lado, onde o colchão começa a queimar, você deixou o Neruda confessando que viveu, enquanto eu pareço esperar a morte chegar da pior forma, como se esse realmente fosse um dia que vale a pena viver. Tento esquecer da canela já marcada por causa da corda apertada e essa pessoa “lúcida”, que nem lembrou que temos algemas de pelúcia. Jamais aceitarei novamente inverter os papéis. Quem é Senhor, não pode abrir mão de seus anéis. Preciso manter a calma. Você não tem culpa, a culpa é dos cristãos. Preciso de mais vestígios nossos, mais resquícios de tesão, preciso de mais rastros seus. Não posso me entregar…

Meus olhos queimam, não posso mais enxergar.

Sim. A tattoo. Sua tattoo na costela escrita em francês, com aquela velha frase do Marquês que você recita quando fico lambendo ela: “o corpo é o templo onde a natureza pede para ser reverenciada”. Prefiro assim, em português, nunca fui bom em idiomas, você sabe. A não ser o nosso particular, onde palavras se intercalam com gemidos e barulho de chupadas. Se for pra morrer, que seja assim, embriagado do que escorre dentre suas coxas. Ou pelo menos lembrando isso. Minha boca seca até esboça salivar. Mas cadê você? Como me embriagar pra esquecer que minha pele começa a borbulhar?

Que ironia! Eu que elegi como pior fim morrer afogado, com tudo em volta a me queimar, creio que deve ser mesmo doce morrer no mar. Não sei se creio, não sei… O Malcon queimando na parede já escurecida, armado olhando pela janela, ainda me inspira, tem que me inspirar; por todos os meios necessários eu desejo sair daqui. Mas tudo me queima. Tudo me queima, como a consciência que pesa em ter mentido que não beijei tua prima, mas a mina da rua de cima eu nunca peguei. Você nunca acreditou e isso também me queima. Tudo me queima. Preciso urgente de algo mais, algo que abafe a dor, que alivie o calor. Preciso de algo. Preciso, preciso como um viciado implora a próxima pedra. Preciso, preciso como um evangélico atira a próxima pedra. Tudo queimando. Tudo me queima. Era pra ser seguro, além de são e consensual, sua louca! Agora tudo me queima. Estou a um palmo do sol, sentindo as fibras da carne abrindo regadas a sal. Tudo me queima. Meu céu escurecendo, meu universo em desalinho, me queima a razão. Tudo me queima. Queima minhas mãos, tudo queima. Preciso… Me queima, tudo me…

Emol

Deixe um comentário

Design a site like this with WordPress.com
Iniciar
close-alt close collapse comment ellipsis expand gallery heart lock menu next pinned previous reply search share star