Socorro!

Socorro, querido!

Estou presa no décimo andar e o prédio está pegando fogo, não dá pra subir nem descer, tem muita fumaça e está difícil saber para onde ir, se é que tem sentido tentar ir para algum lugar.

Espero que essa mensagem chegue até você, espero que os bombeiros venham me salvar, espero que algo aconteça e principalmente espero que o wi fi ainda funcione!

Dizem que a morte vem por asfixia da fumaça, foi o que aconteceu com a mãe da Flavinha, lembra? Aconteceu também com aquele produtor que todo mundo gostava e morava na mesma rua que nós, eu até te falei que devia ser vizinho quando vi os carros de bombeiros passando pela nossa casa. Foi o mesmo com o Steve Marriott dos Small Faces? Não, ele dormiu com o cigarro aceso na cama como a Clarice Lispector, mas ela não morreu disso. Ele sim.

Acho incrível, mas estou calma no meio do pânico e da gritaria que se instalou aqui. Normal. O pânico é normal, minha calma é que é anormal. Fazer o quê, nada depende mim. Na verdade acho que fico mesmo calma nessas horas tensas…lembra quando o Renan puxou a faca para aquela menina que estava nos perturbando a noite toda? Estávamos todos muito bêbados e eu nunca fiquei tão sóbria tão rápido. Calmamente segurei o braço com a faca, levei o cara pro quarto e fiquei conversando com ele pra acalmar enquanto você tentava fazer a pomba gira dublê se Joan Jett ir embora.

Agora fico aqui lembrando do incêndio do Edifício Joelma, as labaredas, as pessoas se jogando ou sendo literalmente fritas no telhado sem saída. Eu estava sozinha em casa, meus pais estavam em uma escuna em Salvador comemorando o aniversário da Rosinha Goldfarb porque era dois de Fevereiro, dia de festa no mar (…e eu quero ser o primeiro a saudar Yemanjá…). Muito surreal ver as imagens do incêndio e ao mesmo tempo pensar nos meus pais e os amigos todos festejando dentro d’água. A água azul de Amaralina…

Queria estar escrevendo isso em casa com as gatinhas enrodilhadas no colo e uma xícara de chá ao lado, mas estou nesse caos. Já não consigo respirar direito, tem um cheiro de plástico queimando e eu não enxergo nada. Só sei que está quente.

Se eu não voltar espero que você tenha a certeza de que eu sempre te amei, se os bombeiros chegarem espero que eu não esteja em muito mau estado pra te encontrar. Sei que você fica nervoso. Vou deitar no chão porque a fumaça sobe, foi assim que se salvou aquele único passageiro do vôo da Varig em Orly , 1973, aquele em que eu deveria estar mas não fui. Fiquei chorando sentada no banheiro acarpetado do hotel de luxo em que eu fiquei por um dia em Paris, quando soube do desastre. Era o mesmo avião. Bom, vou deitar e esperar, aconteça o que acontecer. Só espero que seja rápido e indolor, seja o que for.

um beijo.

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