Comprado há anos numa parada qualquer durante um passeio fluvial na França, o meu chapéu de palha é elegante. É diferente. Me cabe bem.
O sol deste inverno é forte e pede que o chapéu me acompanhe num passeio ao longo da Avenida Paulista. Levo o junto e ao entrar na estação do Metro de Butantã, fica na mão. Há uma multidão indo e vindo. Ninguém usa chapéu de palha. Tem sim, boinas, bonés, bandanas, quepes, toucas de lã, lenços!
Igual a muitos objetos do meu dia a dia, o chapéu é velho e um pouco gasto, mas não me desfaço. Já falei, cabe bem. Fica firme nas rajadas de vento além de levar muitas lembranças.
Avenida Paulista começa pouco depois da Igreja Ortodoxa e da Cervejaria Brahma. Lá fica a estação Paraiso onde desço após a baldeação na Estação Consolação; linha Amarela para a Linha Verde.
Lá também fica o Hospital de Câncer com o seu deposito de moveis usados (doados) Minha mãe adquiriu muitos para mobiliar a casa. A família chegou ao Brasil sem mudanças. A intenção era ficar por poucos anos!
Sábado é menos frenético! Menos office boys e executivos e mais cachorros com seus donos.
Todos educadamente levando os saquinhos de plástico. Muitos casais.
The Blue Room! O restaurante no último andar da loja de departamentos Sears -Roebuck substituiu o Salão de Chá do Mappin, lá do Centro. Nos anos sessenta do século passado, era um local sofisticado e moderno para se tomar chá e comemorar eventos especiais. Festejei a minha formatura do Highschool com o um tradicional baile. Hoje, reformado, é o Shopping Paulista. Fica há um quarteirão do Hospital Alemão Oswaldo Cruz que também tem um bom restaurante! Um refúgio para quem acompanha seus familiares internados! Péssimas recordações.
Descanso no jardim da Casa das Rosas. Só tem uma flor aberta no roseiral. Já conheço o museu e não quero entrar. Não é a exposição que me atrai, mas as vidas vividas. Sento a uma mesa e peço um café com leite e uma torta de limão.
Não tiro o velho chapéu de palha. Aproveito do momento de calma sob as árvores centenárias e converso via Whatapp com meu neto Frederico. O jovem está longe daqui, descobrindo o mundo e a si, lá em Lisboa.
O casal ao meu lado cuida do seu filho pequeno. Ele descobre a liberdade do pátio. Me olha de uma maneira que só criança muito nova consegue. Ele quer o meu chapéu. Tudo bem. É um chapéu velho. Corre com ele no meio dos canteiros.
Os garçons entram e saem da edícula. Era a dependência dos criados.
Turistas tiram fotos. Clientes vem e vão. Um grupo de jovens nipônicos se sentam no chão. Consultam o Guia de São Paulo. Muitos selfies.
Entra um alegre casal de cegos acompanhado por um guia de alguma ONG. O casal de lésbicas se beija ininterruptamente. Os pais do menino devolvem o chapéu e com o menino no colo vão embora.
Eu sigo em direção à Rua Oscar Freire a procura do Café Santo Grão. Nos cruzamentos, os pedestres teimam a não respeitar o sinal. Desafiam o motorista que contorna a esquina. É questão de orgulho de não se enquadra na ordem das coisas! É diferente na Alemanha. O alemão obedece: não tira o pé da calçada. Já o americano questiona: “Can I get away with it?”
Chego ao prédio imponente da FIESP onde passei muitas horas com o pessoal das bibliotecas escolares da SESI. Planejando. programando, sonhando, realizando!
Itaú Cultural. Tem uma exposição que não quero ver, mas descanso na sombra da entrada e tiro o chapéu para enxugar a testa e ajeitar o cabelo.
Consulto o Waze no meu telefone e vejo que o destino ainda está bem longe. Prefiro um mapa de verdade, de papel, que posso deixar à mão. Se fizer isso novamente vou imprimir um do Google Maps.
Chego na Brigadeiro. Por que o brigadeiro de chocolate é chamado de Brigadeiro? E “Céu de Brigadeiro”? Tem chocolate no céu? Será que o sol e a fome está me afetando? Deixa pra lá.
ÃPasso pelo Parque Trianon. Quero conhecer esse pequeno parque urbano e sua flora. Hoje não. Tenho um destino. Nem a programação do MASP me atrai. Chego no cruzamento com a Rua Ministro R. de Azevedo e percebo meu erro. Restaurante Capim Santo: NÂO! Santo Grão: SIM! (Ficou moda colocar “Santo” no nome de restaurantes.) Min. R de A: NÂO! Padre João Manuel: SIM! (Quem eram essas dignidades e que realizaram para ter essa homenagem?) Me apresso. Não tenho memorias deste trecho e o sapato já está incomodando. Desço a Padre JM , entro a esquerda na Oscar Freire ( quem era?). Milagrosamente uma mesa e uma cadeira esperam por mim. Descanso meu elegante e velho chapéu francês na cadeira ao meu lado. Peço um café com leite e uma torta de limão.
….to be continued!
Rambling: perambulante; divagante
Rummageing: rebuscando