Eu: Oi.
Eu: Tá pegando fogo, Maria.
Eu: To aqui descendo esses 3 lances de escada, já no último, e conhecendo as pessoas que trabalham aqui faz anos com as quais nunca troquei mais do que um bom dia.
Eu: Não dá pra saber quem elas são de verdade, né, você sabe.
Eu: Mas estão todas nuas agora e consigo senti-las, sem palavras vazias, sem máscaras.
Eu: A escada diz muito sobre nós.
Eu: A gente sente o tempo da pessoa, como não percebi isso antes? Os passos velozes como asas de beija flor, focados como dardos lançados, os desajeitados quase desafinados, aqueles quase parados que são bem diferentes dos silenciosos que passam desapercebidos. Tem os descompromissados como um mosquito atraído por qualquer luz, o do corpo sedentário que se arrasta, os apressados que pulam etapas..
Eu: Você entendeu.
Eu: Mas no caso… como a água, quer dizer, o fogo, bate nas bundas, é a alma mesma que se expressa pelos passos.
Eu: A vida crua, o sabor que cada um sente dela, é que desce a escada.
Eu: Tá todo mundo do avesso.
Eu: Se tivesse entendido antes perceberia pelos seus passos tortos os nossos descompassos, tinha ficado no meu próprio tempo.
Eu: Não estaria nesse prédio agora. Maria.
Eu: Vou morrer.
Eu: Eu vou morrer e minha vida foi uma bosta.
Eu: Ta vindo um cara que eu sempre achei que fosse um miserável, aquelas pessoas que esperam o resgate da morte.
Eu: Só reclama o dia todo
Eu: ó vida, ó céus.
Eu: Sempre meio sujo, cabelo desgrenhado, remela no olho. Pálido e magro.
Eu: Falso.
Eu: Ele desce como se estivesse esquiando uma das pistas mais íngrimes, tem alguém esperando por ele e uma vida inteira que não está disposto a perder, quem diria.
Eu: Ele só se segura pelo corrimão e raspa os pés nos degraus para gerar algum atrito.
Eu: Mais rápido até do que o gordo que rola escada abaixo, não sei se por estratégia ou se foi alguém rápido demais que acabou o salvando.
Eu: Deve ter sido uma escolha, ele é conhecido por aqui por dominar a arte do mínimo esforço.
Eu: O importante é que ele chegará lá mais rápido, não é mesmo? Sortudo.
Eu: Agora, ninguém o ajuda. Isso diz muito sobre nós. Só queremos ser ajudados.
Eu: Me empurram também, quase caio, não guardo rancor.
Eu: Continuo descendo. Devagar, mas persistente. Como tenho levado a vida mesmo.
Eu: Um burro de carga.
Eu: Sua carga né, Maria.
Eu: Que calor da porra, Maria.
Eu: Sempre quis ir pro Piauí. Agora não vou mais.
Eu: Acho que vou morrer mesmo.
Eu: Não estaria nesse prédio agora, Maria.
Eu: Sua filha da puta.
Eu: Olha onde você me trouxe, com seu ritmo acelerado, saí da minha bossa para esse seu trance de maluco e no fim cá estou nessa escada preso a minha agonia que já virou música de elevador.
Eu: E todos esses ritmos agora evidentes me fazem sentir humilhação. Era tão óbvio.
Eu: Tá pegando fogo e eu não to correndo, entende?
Eu: Olha alí, cabei de ver aquele bundão que me trata mal. Ele vive com a cara fechada, como se fosse melhor que todo mundo.
Eu: Taí, não vale nada.
Eu: De mal a pior. Chorando, sentado.
Eu: Desistiu.
Eu: Que vida de merda por trás dos panos agora escancarados.
Eu: Devem achar que fui eu quem causei o incêndio, sou o mais devagar.
Eu: Eu sinto os olhares. Como sentia o seu.
Eu: Mas é só que esse virou meu ritmo depois do que nos aconteceu.
Eu: Não faço parte dessa orquestra de desesperados.
Eu: Não sinto mais nada, não se tem o que sentir de mim, além disso.
Eu: Meu sabor era você.
Eu: Mas como poderia fazer isso Maria?
Eu: Não sou louco.
Eu: Não sou louco.
Eu: Agora to escutando os outros tempos, as outras vidas. Você era meu fone de ouvido.
Eu: Não sou louco. Por mais que você diga isso.
Eu: Caralho, me empurraram e eu quase deixei meu celular cair agora. Seria horrível não poder terminar de te escrever o que preciso. Você me esqueceria, sentiria pena de mim, talvez aliviada. Não sinta.
Eu: Alguns aqui já desistiram, não os otimistas corajosos que subiram correndo mesmo sem saber se temos ou não um Heliponto, mas se eles não querem tanto a vida o que eu posso fazer? Os entendo.
Eu: Só tô descendo mesmo porque quase me levam.
Eu: É como se estivesse num abraço coletivo daquelas patéticas terapias em grupo que eu fiz por um tempo. Calor humano, sem hierarquias ou muros entre nós, tinha esquecido essa sensação…
Eu: Ou melhor, num metrô às sete horas.
Eu: Não ache que estou sentindo o que falei primeiro, não to, falei por falar.
Eu: No fundo ninguém liga pra ninguém, não da mesmo para confiar, né.
Eu: Eu to morrendo, me perdoa.
Eu: Mas eu juro que não fui eu.
Eu: Tem uma pessoa mais devagar.. É o Leonor, o velho do café. Ele ta olhando para mim como quem não deve nada a ninguém.
Eu: Me disse agora que já tinha se preparado para esse momento.
Eu: Foi ele.
Eu: Fui ele!
Eu: Devia estar com raiva do sócio. Certeza ele planejou tudo. Que doente.
Eu: Aquele mentiroso, te demitiu porque você pediu. Sei.
Eu: Hoje ele tá aqui né? Fica calma, no fim você também vai queimar no inferno. Não sei porque vocês se falam tanto.
Eu: Não, não pense que fui eu.
Eu: Não tenho raiva dele e eu não faria isso, apesar dele ter feito o que fez para mim.
Eu: Vocês, no caso.
Eu: Nossa, o calor dói, estala minha pele.
Eu: Sua pele tão delicada não aguentaria.
Eu: Falta um lance só.
Eu: Acho que não tenho como alcançar a porta.
Eu: Tô te vendo pelo vidro da janela!!!
Eu: De novo você usa o vestido que te dei? Como tem coragem? Depois de me humilhar na frente de todos? Quer o vestido só né. Eu entendi já.
Eu: O que você tá fazendo aqui? Só agora você volta.
Eu: Você tá chorando e falando com a polícia.
Eu: Que porra é essa? Você tá mostrando seu celular???
Eu: Esperava mais de você, Maria!