Boa Noite meu Amor,
Estou em Chicago naquele velho hotel que já ficamos. Está pegando fogo. Tudo em chamas e não tenho muito tempo. A fumaça já está entrando pela fresta da porta. A janela tipo guilhotina não abre. Emperrada. Emperrado como o nosso casamento. Desculpa. Sair de casa foi a melhor opção neste momento. Há muito mais entre nós do que as picuinhas. Vamos resgatar o bom e lindo de nosso relacionamento. Cinco anos já passaram desde que nos apaixonamos. Se sair daqui vamos pensar e repensar. Topa? Quanto tempo terei ainda para escrever essa carta? Ela vai queimar comigo? Não não! Vou colocá-la na bolsa de couro e jogar pela janela. Isso mesmo. Boa ideia. Talvez eu me jogue também. Cenas de New York? Dar tempo ao tempo. Você sempre diz isso. Como será que você vai passar o tempo daqui adiante? Tantos incógnitos! O futuro. Eu não tenho mais futuro. Continue com os seus projetos na fábrica. Sempre tive confiança no seu empenho e sua dedicação. O mundo está mudando. A visita do Lula e o pessoal do sindicato foi uma demonstração clara disso. Não se deixe intimidar. Mas agora não está a hora de discutir a situação das metalúrgicas. Não tenho tempo. As sirenes tocam. Os bombeiros chegam. Despeço-me de você e nosso filho. Obrigada! Amo vocês. Favor cuide bem do filho, ele é tudo especial. A sobra de nosso amor. Cuide bem de você também. Continue amando a vida. Continue desenhando e rindo. Continue tomando uma com os seus amigos lá no Boteco do Joca. Cuide bem de você. Amo você. Até de seus defeitos! Não vou conseguir sair daqui! Amo muito você – na alegria e na tristeza. Agora a morte vai nos separar. Kat DEPOIS DE 50 ANOS Boa Noite meu Amor, Estou sentada naquela poltrona do meu avô, esperando. Estou olhando para a aquela vista linda da cidade. Estou tranquila. Há um incêndio no prédio. Vou esperar. Não tenho mais como descer os 14 andares. Aquele joelho! Aquele que machuquei no barco quando estávamos velejando na represa. Lembranças boas. Deixe o meu lugar no fosso da escada para os pais jovens com seus filhos! Escuto a histeria. Eles têm o futuro e a vontade do futuro. Corram! Corram porque a vida vale ser vivida! Nosso passado foi bom, não foi? Cinquenta e cinco anos no mês que vem! Trancos e barranco, mas foi bom. Que mais me lembro são as romarias a cavalo para Pirapora do Bom Jesus. Dois dias de poeira na estrada e música caipira! Melhor do que a estadia em Paris ou New York. Pode acreditar! Como eu reclamava com você por me ignorar e me deixar sozinha enquanto você carregava a bandeira na frente ou cantava com a turma na culatra. Sentávamos juntos, exaustos e empoeiradas na igreja. E o Padre John rezando a missa com aquele sotaque irlandês. Ele já faleceu. Esperávamos na fila para tomar um banho e dormir no Hotel Brasil. Dormitórios separadas! Tudo foi demolido. Anos depois seu cavalo Faceiro que levou uma picada de cobra no focinho e meu foi atropelado pelo trem de Caucaia. Tantas coisas da nossas vidas não existem mais. Já juntei os meus documentos e alguns pertences de valor. Aquele castiçal de sua bisavó. As minhas joias; seus relógios. O que coube na sacola. Os quadros vão ter que ter que ficar. Inclusive a Madona. Essa não devíamos perder. Passou a guerra toda numa caixa de metal enterrada aguardando o final da pilhagem! Não, agora não é a hora de recontar essa e outras histórias. Que hora será que é? Chegou a hora? A fumaça está entrando pela porta do terraço. Os bombeiros já chegaram. Sirenes. Gritaria. Vou ligar para o nosso filho. Não, não vou me despedir. Não faz sentido. Para que se preocupar. Estou indo ao seu encontro. Você fez muita falta nesses últimos três anos. Até em breve. Kat