Carne que se desprende do osso

De longe parece uma enorme fogueira de São João. Uma fogueira que atravessa os tempos, que chega a nós pela voz de vinte milhões de seres, alguns, com bilhões de anos, vêm de fora do sistema solar, outros mais recentes, com milhões, milhares de anos, veem de toda parte deste mundo, dos mares, dos ares, da terra. Um rei egípcio que há cinco mil anos dormia em seu tumulo, foi trazido, há mais de duzentos anos, para esse novo palácio. Nele continuou seu descanso que parecia jamais ter fim. Pode-se imaginar que já estaria cansado de descansar, ansiando por alguma emoção, e ela chegou sob a forma de um cataclismo. De inicio a fumaça, depois as chamas, depois o desmoronamento e o esfarelamento, como a porcelana que cai no chão. Uns poucos pedaços maiores, alguns pequenos, e incontáveis caquinhos que se escondem nas frestas do assoalho. Lá ficarão para sempre. Ossos não queimam, como se pode ver em qualquer crematório. Depois que o corpo passa pela fornalha, sobram algumas peças de metal como as alças do caixão e alguma prótese, a fivela retorcida de um sapato, com certos ossos de maior porte como a bacia, o fêmur, o úmero e partes do crânio. Eles são reunidos em uma caixa e enviados para os moedores que os transformam em pó. As cinzas que são entregues aos parentes se constituem, na verdade, de uma pequena porcentagem de cinzas e uma grande porcentagem de ossos moídos. Então os ossos do egípcio ainda estão lá, ainda que misturados com ossos de dinossauros, cacos de cerâmica marajoara, e amostras minerais. E toda a cinza da estrutura de madeira e dos moveis. Vão se salvar os meteoritos, afinal já escaparam de coisas piores do que esse incêndio, o resto será um lixão que vai se perder nas frestas dos contêineres de entulho.

Num lugar longe dali os animais fogem desesperados. Passa um bando de macacos, com os filhotes agarrados às costas. Cobras se esquecem de caçar e fogem lado a lado com pequenos roedores. Os pássaros fazem uma barulheira, como um sistema de alarme. A onça vê, do alto de uma arvore, o fogo que vem chegando, e calmamente, porque onça só é rápida na hora do bote, caminha na mesma direção que o vento e a fumaça, calculando com preguiça a velocidade mínima possível. O vento hesita, muda de direção, e o fogo pega de surpresa outras onças, cobras e tudo mais que é vivo e se move na floresta. As arvores esperam as chamas com estoicismo. Algumas ocupam o mesmo pedaço de terra por 500, até mil anos. Talvez sua imobilidade não seja tão longa quanto a do egípcio, mas passaram todos esses anos bem vivas e respirando. O fogo chega e suas cinzas são tantas que soterram tudo, mesmo eventuais ossos de animais. Parte sai voando e chega longe, transformando em noite o dia de São Paulo.

Noutro lugar, também longe, um rapaz consegue enfim beijar uma moça, sem imaginar que é ele a caça. Nem desconfia que chegou nela através de iscas que ela ia deixando, no Instagram com um like aqui ou ali, na balada com um olhar escorregadio, impossível de ser capturado por mais que uma fração de segundo. Um comentário da melhor amiga para o melhor amigo também faz parte da sua armadilha de sedução. Nesse momento ele se sente no céu, o sabor daquela boca é único, ele pode sentir os lábios, a língua, a respiração. Ele está cem por cento presente aqui, nesse momento, nesse beijo. Seu braço a agarra pela cintura, ela se sente desejada e ao mesmo tempo protegida. Tanto tempo na caçada e ela pode agora também estar toda presente, com todas as suas células, seu sangue, seus ossos. O tato, o gosto, o cheiro tomam seus pensamentos, só cabe ainda uma sensação de estado de graça. Esse beijo vai durar para sempre, no mínimo cinco mil anos, como o rei egípcio. Sem perceber são empurrados e caem no chão. Estavam tão absortos um no outro que não podiam ver nada. A banda no palco pegando fogo, o teto se desmanchando. Ele se joga sobre ela, são pisoteados mas ele a abraça com força para proteger a única coisa que conta nessa vida. Ela se aconchega nesse abraço, apavorada mas sem pânico, porque ele está em cima dela. Respiram juntos o gás cianídrico.

Eles não são velhos como o egípcio, ao contrário, aqui a carne é fresca e tenra, viva  como as árvores e os animais. Vão ser recolhidos, ossos e carne queimada, e enterrados longe um do outro.

Deixe um comentário

Design a site like this with WordPress.com
Iniciar
close-alt close collapse comment ellipsis expand gallery heart lock menu next pinned previous reply search share star