Já perdi a conta de quantas vezes, ou melhor, por quanto tempo já corro atrás de você. Em quantas oportunidades já errei e te perdi. Na vez passada foi por pouco. Você me olhou e sorriu, me reconheceu entre tantos naquela praça. Era uma multidão que lutava por seus direitos, assim como eu luto por nosso amor. O destino estava a nosso favor, mas a tirania de uns é a ruína de outros. Você sorriu em meus braços antes de partir, e é por esse sorriso que continuo. Na verdade, que continuei por tantos tempos e lugares. Dessa vez será a última.
Soa a sirene. Primeira explosão e um pilar é partido.
Quando nos conhecemos tínhamos uns 13 ou 14 anos de idade. Nos achávamos adultos, ou melhor, quase adultos. Você dizia, “quero decidir sobre minha vida. Se um dia quiser morrer, morro e ponto! Mas por outro lado, não quero ser adulta, ter que trabalhar muito e fazer um monte de coisas que não gosto e ainda sorrir pra fingir que está tudo bem”. Tão pouco nos sentíamos crianças, afinal já havíamos nos beijado. Ainda sinto o mentolado sabor do primeiro beijo. Sempre rio quando vejo propaganda de um novo chiclete com “sabor prolongado”. Quero novamente o seu toque, seu olhar, quero repetir aquele primeiro beijo, nem que seja o último. Carrego comigo uma foto desse dia. E um chiclete de menta.
Segunda explosão, outro pilar que se parte.
Num outro encontro, que você também não se recorda – sei que parece estranho mas, enfim – você não estava feliz. E olha que eu já te vi em muitas situações, mas daquela vez foi a pior. Talvez por esse motivo também não tenha dado certo. Eu fui atrás da razão de sua tristeza e perdi o tempo tentando te entender. Como pode alguém viver naquela situação? Como pôde se deixar levar? Bem você!? Uma pessoa, se assim posso chamar, aprisionando outra numa casa, por amor? Ah! Que beleza de vida. Um grande quintal, empregados e a merda da solidão. Entendi, pelo menos, sua decisão final.
Terceira explosão, terceiro pilar fraturado. A onda de choque reverbera pelo corpo de concreto.
Mas teve também aquela outra vez. Você estava muito diferente. Seus cabelos pintados de vermelho, uma tatuagem que cobria todo o braço direito com as efêmeras flores de Sakura. Eu ri quando vi, provavelmente foi um sinal. Estava linda, seu sorriso brilhava mais que a estrela mais brilhante dos céus, e olha que eu já vi muitos. Sua felicidade me atraiu como uma mariposa voando direto para a luz. Dessa vez me perguntei se deveria interferir, se seria justo. Quando finalmente decidi, você já também já havia se decidido. Muita felicidade é sinal de problema. “Sorrir para fingir que está tudo bem”.
Quarta explosão. Como um animal ferido o edifício treme tentando se sustentar.
Mas agora quem se decidiu antes fui eu! Após te encontrar nessa cidade, nesse mundo, logo te segui para não dar chance ao acaso. Quando você deixou o bilhete embaixo daquela porta, eu consegui puxá-lo e ler suas intenções. Está bem decidida novamente. Que adrenalina dessa vez, não!? Não me entenda mal, eu te conheço há muito tempo, não tentarei te impedir. Na verdade só quero estar com você, nem que seja a última vez.
Quinta explosão e o edifício começa a ruir. Abatido, primeiro se ajoelha. Da esquerda para a direita ele vai caindo para dentro de si. Tomba por completo.
Como fiz isso? Encontros que não se lembra? É algo muito estranho mesmo, ainda mais nesta realidade. Mas é real, tão quanto meu amor. Logo depois da primeira vez que você se foi, iniciei uma busca por meios de te reencontrar. Realidade virtual, drogas cibernéticas, implantes mentais, tudo o que existia naquele então promissor futuro da humanidade. Até que encontrei uma pessoa, no caso, eu mesmo, só que mais velho, de um outro tempo, e que me deu o dispositivo, parecido com um relógio, que me permitiu viajar entre mundos. Permitiu, por que agora acabou. Partiremos juntos, como nosso destino deve ser.
Até daqui a pouco e para sempre.
Te amo!
Um enorme volume de fumaça e poeira branca acinzentada sobe acompanhada da onda sonora da destruição tomando o lugar dos sólidos 8 andares.
A distância, na plateia desse evento, uma mulher assiste a tudo com uma foto e uma carta de amor nas mãos.
Aplausos.
Bruno Coltro Ferrari