A verdade é que lembrei daquele filme, como era o nome? Aquele, que me fizeram ver umas trezentas vezes na faculdade, depois de um tempo ficou repetitivo mas era muito bonito. Porque ela descrevia a forma como o marido colocava o casaco. Era uma cena que ela havia filmado, e mostrava ele colocando o casaco, com a narração dela. Primeiro um braço, passava até o final, virava pelas costas e depois o outro braço. No meio da imagem, da transição entre um braço e outro ele perde a manga, retoma, procura pelas costas, passa o outro braço. Era uma coisa meio lenta. Me lembrou de você depois do banho. Secava o corpo não sei quantas vezes, uma perna, outra perna, de cima abaixo. As costas inteiras, a toalha dançando de um lado para o outro, repetia. Depois o ritual do cabelo. Pendia a cabeça para a direita, e escovava de baixo pra cima, fechava o olho, penteando num movimento sempre constante. Terminava um lado e ia pro outro, a mesma coisa, de baixo pra cima, os olhinhos fechados, então voltava a cabeça para cima do pescoço e de frente para trás. Você parecia se perder ali, penteando o cabelo, tanto tempo que demorava aquilo, tanto que eu reclamava de estarmos sempre a ponto de perder a hora. No final ainda penteava a barba, já terminando, relaxado como se tivesse passado os últimos minutos num spa. Como se o seu ritual do banho fosse completamente independente do decorrer do dia. Para o banho havia que se ter tempo.
Com você tudo podia durar como aqueles cinco minutos a mais na cama depois do alarme tocar. E eu reclamando. Agora não importa mais, porque não sei para onde foram aqueles cinco minutos. Agora mesmo se fossem quinze, durariam tanto menos, tenho certeza. Os cinco minutinhos abraçados na cama entre acordar e dormir de novo. Então te escrevo aqui e não sei nem se você vai ler, mas eu sinto falta daqueles cinco minutos, mais do que pude sentir uma vida inteira. Lembra quando te li meu diário? De como a gente era no começo? Eu completamente apaixonada e você sempre me afastando porque me achava distante. Acho que nunca de fato entendeu que a carapaça estava quebrada há muito tempo já. Tenho exoesqueleto quase como uma cigarra. Quando quebra a casca ela canta, mas antes tem que passar um tempão enfiada debaixo da terra. Agora vejo a fumaça entrar debaixo da porta, sinto a vontade de pular. Cinco andares não são nada, dá pra se esgueirar pelo cantinho da janela, quem sabe eu pulo? Um menino da minha turma quando eu era criança, pulou do quarto andar e só chegou com a perna quebrada. Às vezes era tudo papo furado infantil e ele pulou foi do primeiro, exagerou pra assustar a gente. Eu não sei o que fazer. Estou sozinha aqui e não devia, não queria estar sozinha. Queria você aqui para reclamar da sua bagunça e do tempo que você demora arrumando o cabelo. Do tanto de sabonete que você gasta num só banho. Não queria fazer isso só. Me lembro do Itamar, uma vez ele disse que não era medo de cair. Era confiar que o seu corpo vai saber o que fazer quando cair. Mas ele era um louco, ele já teve seus dias de achar que ia cair de verdade. E lá vou eu falando sobre os ex’s de novo, coisa que você nunca suportou. Seguimos assim, irremediáveis. Não sei se confio no meu corpo. É difícil saber para onde correr quando o mundo inteiro está em chamas. Passaram-se agora mais cinco minutos, talvez eu deva me decidir. Se eu quebrar só uma perna, se eu quebrar só um braço, vem me ver no hospital?