Estou de boca fechada. Um peixe fora d’água. Sequência de passos. Seguimentos de enganos que vergam todo o suporte do meu corpo frágil. Plataforma fixa no nada. Poderia ser a primeira num coração qualquer. Anorexia no coração da minha mãe ausente. Eu sou mais um exemplar de uma série. Bonecas de plástico. Dismorfia flutuante. Estou de boca fechada. Um peixe fora d’água. Ninguém ouvirá o meu grito na hora do splash. No trampolim, como um ponto esquecido antes de uma frase. Erro de digitação. Erro de fecundação. Alguma outra explicação para a depressão pós-parto. Agora parto num mergulho cego. Fecho os olhos. Meu cérebro contou os ladrilhos azuis. Eles nunca estiveram tão nítidos. Estou de boca fechada. Um peixe fora d’água. Agora serei um ponto. Uma conta de pedra. Um seixo áspero. O tempo sem tempo de gastá-lo. Uma gota de chumbo ainda quente. O leito seco. O rio de lajotas rejuntadas de mágoa. Céu sem nuvens. Sou uma solidão jovem e tão antiga. Mãe. Eu a via sempre encolhida. Um embrulho de lã cinzenta como o seu coração. Desconhecia afagos. Era lisa, fosca. Terei sempre dificuldade em projetar seu rosto. A cabeça sempre inclinada para baixo. Um anjo triste de mármore. As mãos secas. Uma sobre a outra. Nenhuma pétala. O seu vulto sem cheiro. Ausência de flores na vida de seu vestido. Se ao menos cantarolasse uma cantiga íntima. Eu teria uma referência. Para quem trouxe as margaridas? O meu pai me olhando constrangido. Sorriso trêmulo. Seu olhos saltando de mim para ela numa indecisão dolorosa. Visitas cada vez mais rápidas. Parei de assistir a esse espetáculo trágico. Aprendi a baixar os olhos e a calar a boca. Estou solta nesse ar rarefeito da minha angústia. Estou de boca fechada. Um peixe fora d’água. Fecho os olhos secos. Na piscina, lágrima alguma. Pontapé à lua que ancora o dia com seu brilho-nada. Um fantasma sem reflexo rondando o meio dia. Sem prorrogações. Plataforma fixa. Corpo estendido para o caleidoscópio azul. Entrego-me à curvatura no espaço e no tempo. Uma lâmina cortando o aço desses corações distraídos. Saindo de frente e girando para trás. Desembainhando todo o ódio-espada dessa solidão. Uma perfurante linha de fogo queimando os papéis dos contos de fadas enganosos. O mais vertical possível em relação às lágrimas. Sem alardes líquidos. Nenhuma lágrima. Um perfeito baque-splash seco. Deslocamento zero d’água. A eternidade de um segundo e meio deveria durar menos.
Maria de Lourdes F. Alves