Nasci na Zona Sul, a parte bolha do Rio, morei num bairro bolha, estudei num colégio bolha e depois numa faculdade bolha, casei com uma adorável mulher bolha e desde então venho vivendo assim. Minha família, apesar de me proporcionar todas essas bolhas, era apenas remediada e não tinha carro. Numa noite, esperei uns 50 minutos pelo ônibus da madrugada e, vendo os carros passarem, jurei para mim mesmo que assim que pudesse compraria uma daquelas bolhas magnificas, que me livraria para sempre do transporte publico. Comprei uma,com ar condicionado. Desde então, há quase meio século, nunca mais andei de ônibus. No trânsito sim, mas numa bolha silenciosa, fresquinha e com música. Até essa semana, quando uma tarefa insólita me obrigou a pegar um ônibus, do bairro bolha dos Jardins para o Parque, semi bolha, do Ibirapuera, e dali outro para o museu que se pretende não-bolha, o MASP.
Foi uma experiência e tanto. O velho Engels, citado por Walter Benjamin, dizia falando das multidões, que …”passam correndo uns pelos outros, como se não tivessem nada em comum…ninguém se digna lançar ao outro um olhar que seja. Essa indiferença brutal, o isolamento insensível do indivíduo nos seus interesses privados é tanto mais chocante e gritante quanto mais esses indivíduos se comprimem num espaço exíguo.”
Engels fez esse comentário desanimado com a falta de consciência de classe do proletariado na época, imagino o que diria hoje ao ver cada um enfiado no seu celular e com fones de ouvido. A falta de consciencia pode persistir, mas dá para entender o desejo de isolamento, de se ausentar do ambiente urbano que nos circunda e, talvez com ele, da vida que se leva. O primeiro ônibusesperei num ponto da 9 de Julho, que fica entre as duas pistas. Perfeito para a engenharia de tráfego, mas horrível para as pessoas. Num dia frio, o vento constante chega a machucar. “Tem que sair de casa com roupa de frio”, como me disse uma passageira, “apenas para esperar o onibus”. Além do vento, o barulho e a fumaça são verdadeiros martírios. Na hora do rush não é possívelentrar no ônibus, de tão cheio que está, então se sofre mais trinta minutos até passar o próximo. Nele, o desafiomuda para o de viajar num ônibus lotado, mas aí, pelo menos, já se está a caminho de casa, ou talvez do proximo ônibus.
Os ônibus são bons comparados com os de décadas atrás, mas a lotação e a espera são as mesmas. Como é possívelque eu já tivesse me esquecido desse sofrimento? Na verdade nunca o esqueci, não se esquece o que já se sentiu na pele, mas ficou um sentimento distante, ainda com empatia, mas sem a urgência que a situação requere. Aí me lembro da saúde e da educação, onde as condiçõessão, igualmente, degradantes.
Engels, no trecho acima, ao se queixar da individualidade se referia também aos interesses pessoais que nos privam da empatia, dessa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, de sentir a sua dor. As bolhas apenas nos afastam, ainda mais, dessa possibilidade de sermos solidários. É isso que as bolhas fazem conosco.
No livro que tem o título irônico de “Elogiemos os homens ilustres”, célebre na década de 30, e até hoje, os autores James Agee e Walker Evans, descrevem,escrevendo e fotografando, as condições de vida dosagricultores no interior dos EUA. Para que sua empatia pudesse ser máxima, já que vinham da hiper bolhuda Universidade de Harvard, viveram pelo menos uma semana com várias dessas famílias no campo. Seu livro foi um marco na mudança da consciência social do povo americano da época.
Não seria nada mal que cada brasileiro, no inicio de sua vida profissional, vivesse uma experiência semelhante, na periferia das grandes cidades, nos recantos mais pobres do interior, carregando água na cabeça ou correndo o risco de morrer de uma bala perdida. E que os que escolhessem a política como profissão, fizessem isso a cada inicio de mandato. Isso não acontece, infelizmente, mas alguns cidadãos que vivem na carne essa situação de penúria, estão conseguindo, através da arte ou da própria politica, transcender a sua condição de origem e se tornar, eles mesmos, seus agentes de mudança. Eles não precisam dos bolhudos, não atrapalhá-los nessa difícil jornada já é suficiente.