a ilha

Sala São Paulo e Rua Augusta. Ganho ao acaso o espectro inteiro de intensidades. Fico pensando porque logo eu, que me coço inteira ao me deparar com cardápios fartos, que sou do 8 ou 80, fui sorteada para falar sobre o meio desse caminho, bem o meio dele… O meio do caminho era a graça, onde eu deveria encontrar deixa e saltar voo. Do detalhe, do aleatório. Contudo, entre esses dois ricos extremos, me perco… Apolo e Dionísio ficam lado a lado no espaço em que busco palavrear, sem me deixar em paz para escrever a minha primeira crônica. Resolvi soltar palavras e ver se essa dicotomia sai de mim. Abri-la para abrir as portas do caminho, aquele que sempre se faz de difícil e me escapa.

Decido assistir um concerto.

A orquestra abriu com Orfeu no Inferno. Dei risada porque estava encucada justo com seu pai. Me senti como num prelúdio da minha própria viagem. Eu achava que iria rapidamente do auge da tradição para onde a transgressão transborda. E do começo ao fim deixava entrar aquele alimento secular em som.

Um passo para fora dalí e tudo despenca.

Uma travesti me aborda e vamos comprar 2 litros de refrigerante. Nos enxotam do lugar, porque ela cheirava mal. Estava, de fato, toda cagada. Faminta. Ela agradece alegando minha falta de preconceito, sem saber que por dentro eu resistia com todas as forças ao cheiro ruim.

Ia me distanciando, enquanto digeria o concerto – fantástico – e a ilha desconhecida se evidenciava. As ruínas de Apolo no epicentro de um projeto de modernidade falido. Aquele equipamento construído em tempos áureos do café resuscitado e ensimesmado, num mundo a parte. Sustentado por uma elite branca e farta de estômago e de alma. (Os doces lá de dentro produzem longas filas) Mas que condição do belo. O lado de dentro tem sempre o lado de fora.

Boba, era alí o próprio inferno. Há maior tormento que as vísceras abertas da modernidade? Do que o sangue que escorre das tradições cravadas?

Desculpe mas não há meio do caminho entre céu e o inferno, eles estão presos dentro de nós. Dou minha mão à Dionísio e vou tomar uma cerveja, naquele momento um copo gelado e alcoólico era o mais próximo de um céu. Mergulho, ou melhor, respiro.

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