Lá estava eu, na Santa Cecília, Casa do Norte Luizão. A luz do sol de inverno é a mais bonita, passa lambendo e tingindo tudo o que encontra, e foi assim que fui recebido no bairro. Fazia tempo que não ia àquela área do centro, mas na minha memória tudo continuava igual, ou parecido. Árvores altas, edifícios antigos, uma igreja, moradores de rua, pedintes, a pracinha cheia de barracas de comida, vendedores com mercadorias organizadas no chão, bares e um estúdio de tatuagem, uma mistura de boemia do bairro com novos moradores, dá para perceber pelo estilo das roupas e dos cabelos.
É dia de clássico do futebol e a conversa corre. “O Felipão é assim”, diz um freguês, “quando o Palmeiras faz um gol, vai pra retranca. Já o Santos tá quatro a zero e continua atacando”. Papo clássico, deve ter sido repetido em outros 51 bares naquele dia.
A mesinha estava a minha espera, toda cinza, do lado do balcão, diferente das outras todas vermelhas Brahma espalhadas pela calçada. Antes de sentar pedi uma garrafa de cerveja, imagino que foi para o Luizão, e observei as comidas de buteco no mesmo balcão. A primeira vista pareciam daquele tipo de aperitivo que não passa a menor confiança: peixe seco, frango pálido, carne com mandioca, carne sabe lá do quê. Mas conforme o tempo passou e a cerveja foi descendo entendi a qualidade, a regionalidade e a placa pendurada na parede, “Comida di Buteco desde 2002”, algo como um troféu desses que a revista Veja entrega após um concurso de comidas de buteco. A cada pedido de frango caipira, torresmo ou porção de linguiça, o Luizão, provavelmente ele, repunha a comida, mantendo tudo fresco e bem regado ao molho que as acompanhava.
A minha frente, coisa de 2 metros, uma parede branca e alta repleta de rótulos de cachaça, pinga e outros destilados. Me lembrou o bar de restaurante chique, do tipo todo iluminado e com garrafas caras, mas sem a iluminação e nem as garrafas caras. Logo abaixo das prateleiras haviam umas janelas retangulares que criavam uma conversa com a outra parte do bar, a qual não conheci. Do lado de fora a dourada luz do sol ia subindo pelas mesas, pessoas, árvores e fachadas.
Paguei cerveja e peguei o envelope. Havia algo fino, retangular e duro no seu interior e cabia na minha mão. Agora o destino era o CCSP. Mergulhei na terra, o contraste foi violento. Frio, branco, barulho, muitas pessoas, assim como no bar, mas aqui falta contato humano, ainda que sobrem esbarrões. Cada um no seu tempo, a mãe com o filho, a menina que se maquia, uma outra ouve música e um outro carrega violões, e aqueles de sempre curvados no celular.
Depois da baldeação vermelha para azul começo a emergir de volta. É boa a sensação do vento quente que desce as escadas e novamente a luz do sol.
No caminho um rapaz vende doces caseiros, um grupo estuda ao lado de um estudante solitário próximos de um cidadão que dorme, do outro lado do vidro um curso, de baixo do teto curvo uma fila, no pátio grupos de dança, muitos, na biblioteca mais concentração.
Esse lugar funciona como um organismo vivo com seus diferentes órgãos, onde cada um executa sua função sem interferir no outro, ainda que todos se atravessem.
Subo a rampa e percebo que para ir para trás tenho que ir para frente. Pois é, uma maneira do arquiteto nos forçar a explorar sua arquitetura. Lá em cima uma obra de arte me chama a atenção. São diversas gaiolas penduradas na parede, algumas expelem por suas grades uma espécie de gosma aprisionada. É bom se perceber livre de gaiolas, livre desses falsos moralistas, como o casal de meninas que namora ou aqueles preguiçosos deitados no gramado.
Daqui de cima vejo as ondas de Tomie Ohtake entre dois rios de asfalto que nunca cessam o seu fluxo. Entrego o envelope sob um pôr do sol que vem de leste. Certos edifícios são monstruosos, eles multiplicam o sol. O receptor abre o envelope e me mostra um espelho. Ele reflete a lua.