A moça à minha frente com a cabeca apoiada na janela e os olhos fechados parece imersa em uma viagem solitária, íntima e profunda. Mas, não há entrega nesse gesto. O seu pé num movimento frenético e quase imperceptível sinaliza turbilhões controlados.
O ônibus sobe a ladeira e um som agudo e mais demorado que o suportável anuncia a próxima parada. Tenho pena do motorista.
Uma mulher de casaco vermelho e coque alaranjado sobe ao veículo com o celular na mão e segue direto para um assento vago, sem tirar os olhos do aparelho. As suas unhas pintadas de azul metálico saltitantes no modo teclar me distraem por alguns segundos.
Seguimos no movimento ruidoso do veículo protegido do frio e do vento que lá fora movimenta a tarde cinzenta. Pelas janelas vê-se galhos desapegar-se das folhas secas e o contínuo borrado das silhuetas edificadas. Por um instante uma bandeira surge entre letreiros institucionais tremulando seu verde-amarelo desbotado no lusco fusco da tarde. É mais uma parada.
A lotação se renova com o grupo de idosos que entra como se ali fosse o seu local de encontro regular. Sacos e bolsas ambulantes demoram a ser acomodados pela lentidao dos gestos e passos bambos. Já sentados, eles continuam a se comunicar com sotaques carregados. Algumas palavras soam alegres porém incompreensíveis entre sorrisos frouxos e dentes faltosos. Uma mulher com a voz rouca e tom jocoso parece liderar os demais. As suas falas fazem eco em vários pontos do ônibus por onde se espalhou o grupo, mas também por todo o veículo trespassado por essa energia não totalmente domesticada por pretensas regras da boa educação. Pelo menos até o proximo som agudo da sirene.
Alguns estudantes de casacos e mochilas de marca entram e se deslocam rapidamente para o fundo do veiculo. Uma senhora idosa de touca, luvas e grandes oculos escuros demora a escolher entre as cadeiras vagas aquele que lhe parece o melhor lugar. Depois se dirige até lá com um ar determinado. A postura ereta e o queixo levantado sobre a gola de pele falsa do casaco parece portar uma declaração de direitos ou de guerra. Certifico-me que não ocupo lugares reservados e tento disfarçar a minha curiosidade sobre o seu destino. O senhor está usando as duas cadeiras, avisa ela, de modo áspero. O idoso com as maos um pouco tremulas tenta deslocar a sua enorme sacola do meio do caminho, mas a senhora não pode esperar. Empurra o objeto com os pés reivindicando mais espaço e abre as janelas com um gesto brusco antes de sentar-se. O idoso encolhe em tamanho e cala-se. Faz frio.
A dança dos lugares, os lugares de fala, a fala dos lugares, tudo isso acontece no coletivo, onde quer que se vá, mesmo quando nos calamos ou evitamos ruídos nos deslocamentos.