De onde venho, as árvores são mais baixas.

Se há um tipo de pessoa sem representatividade na mídia de forma geral, essa é a pessoa com rinite. De fato não lembro quando fui a última vez em que vi um filme onde o herói, a heroína, o mocinho, a vilã tinham qualquer problema respiratório comum. A minha se agravou bastante depois de mudar para São Paulo. 

Como um fungo que crescia nariz acima, dificultava cada vez mais a respiração. Primeiro vieram os espirros, ao acordar ou tomar banho. Depois, o quase vício em neosoro ou sorine, ou qualquer coisa que o valha. Uma vida em quatro anos dopada de resfenol, benegripe, decongex, allegra, rinossoro, em dúvida se era gripe mesmo ou só a alergia diária. A sinusite vinha ainda acompanhada de dores tão intensas que me fizeram parar num dentista acreditando que ia ter que operar o canal. 

Isso sem contar o quão invisibilizado é o catarro: às vezes, incapaz de ser expelido tem que ser puxado para dentro, fungado com força, gerando um barulho que incomoda a todos em volta: “E aí? Tá gostoso?” e até mesmo o famigerado “Eca!” Quem nunca passou por isso que atire a primeira pedra. Porque nem sempre dá pra ir ao banheiro. Porque nem sempre uma fungada só vai ser suficiente. Como se o barulho de assoar o nariz fosse mais agradável. Espirros de pais rompem constantemente a barreira do som, pelo menos como me lembro do espirro do meu próprio pai. A fungada é até mais discretinha, pelo menos ninguém precisa lidar com o catarro alheio espalhado em lencinhos úmidos por aí. 

Me vejo ansiando a voltar a Brasília, ideia que antes repudiava, só pra sentir já no aeroporto o alívio nasal, pra sentir o ar entrando lentamente pelos meus pulmões, de um tanto que quase dói da falta de costume. Não que o ar de Brasília seja muito melhor. Ouvi direto da boca de um otorrinolaringologista: tem dois lugares no país em que otorrinos ganham dinheiro. Um é em Brasília, ou outro é São Paulo. Em um o ar é seco, no outro, podre. 

Pois que acordei sexta feira depois de uma noite mal dormida e fui direto para o MAC USP ver a defesa da tese de uma amiga. Lembrando que o MAC fica do lado do parque, aproveitei que era dia de correr e fui logo trajada de vestimentas esportivas. Alimentada apenas de uns dois pedaços de sanduíche de metro (lanche, em bom paulistanês) e num calor de 30 graus me pus a correr no Ibirapuera, toda vestida de preto, às 15h30.  

São Paulo é como o mundo todo, dizia a canção sem mencionar que é um mundo de vieses e vias. Aqui, o cartão postal mais famoso é uma rua, e pra quem tem o céu igual mar, fica difícil perder-se em córregos e riachos. Então para quem procura um oásis verde na cidade, um lugar onde a vista possa se estender para um pouco além do entrecortado dos prédios, o parque Ibirapuera parece o local ideal. À primeira vista. 

A realidade para mim era um pouquinho diferente. Pouco tempo depois de começar a correr me vi sem fôlego algum, pedindo arrego, desejando as garrafas d’águas alheias, o côco da moça do côco, fazendo promessas para todos os santos só pra conseguir chegar à próxima sombra. Tudo ali parecia torrar, e o tempo do cronômetro sem se mover segundo a mais ou a menos. Perto do lago, um cheiro putrefato, fechando os olhos estaria perto do rio Pinheiros. Atrás do planetário, policiais matavam tempo. Perto do prédio da Bienal um outro prédio abandonado, com os mesmos pilotis, deve ser obra do Niemeyer. Me vi forçada a parar: bonitos eram os casais na sombra, que belo dia para ficar deitada. Arfei sentada no chão do vão dos skatistas, hoje um dia mais calmo, o Mam em montagem de exposição. 

Com o tempo aprendi a conferir ao meu nariz um status de termômetro: desses mesmos que espalhados pela cidade indicam em verde “qualidade do ar boa”. Meu nariz por aqui geralmente discorda. Aí tudo que parece bucólico cai logo por terra. Se o ar reluta em entrar pulmão à dentro, é porque talvez ares melhores devessem ser respirados por nós. 

Bonitinho mas ordinário, o parque Ibirapuera, por ser uma das maiores áreas verdes da cidade junto ao campus da USP, concentra a maior quantidade de ozônio da cidade, que reage às ondas solares mais agressivas. Correr entre as 10 e as 16 é quase sinônimo de asfixia. 

Há quem acredite que o Ibirapuera seja o maior parque urbano do mundo, e paulistanos são famosos pelo seu orgulho próprio (leia-se bairrismo). Nesses tempos em que crenças são fatos, o fato é que já sabia a resposta: o maior é o Parque da Cidade D. Sarah Kubistchek, em Brasília. Onde as árvores podem até ser mais baixas, mas o ar pelo menos é mais respirável.

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