A bola carregava um incentivo e era friamente rebatida, quase que empurrada pelo vento da alta pressão com que bufava o molequinho. Encostava na bola com o pé ou a bola encostava nele, e daí ela voltava na mesma direção em que veio. Suas mãos seguravam as várias páginas da lição de casa de matemática, todas meio amassadas. No peito arranhava um sofrimento agudo. Carregava o peso do mundo nas costas agravado a cada passe pela maior proximidade da segunda feira. As bochechas gordas, vermelhas e suadas ressaltavam os olhos de jabuticaba que se contraíam frente a paz de espírito de quem tinha o dobro do seu tamanho e uns 30 anos a mais (ou a menos) de vida, e que não desistia da bola.
O alto, queimado do sol – mas não a ponto de arder a pele – usava um daqueles pares de tênis coloridos e roupas descoladas que um blogueiro fitness usaria. Era um domingo de sol. Pai, filho, um dia lindo e a empatada lição de casa. Mas acima de tudo, era o dia antes da segunda feira, o que ficava claro com aquelas jabuticabinhas que emanavam um misto de preocupação com os números ásperos e urgentes e mais um tanto de indignação frente a positividade do maior que definitivamente não entendia a dimensão de seu problema. E a bola ia, e voltava. Ia e voltava. Ela ia e voltava. A corrida do pai era ancorada pelos passos arrastados do pequeno atarefado que só continuava andando pela bola-coleira que vinha da sua frente batendo inevitavelmente em seus pés. A bola ia e voltava. A insistência do pai residia na esperança de que a bola os manteria conectados.
Três cachorros com molho de terra se enroscavam em alta velocidade perto da árvore mais próxima. E quando a bola ia, não voltou mais. O menino solta os papéis no chão, que se espalharam, devagar, como se fossem leves. Estava exausto. A garganta ardia e ele não piscava nem engolia. Uma gota de suor percorria o canto da sua testa. O pai interrompe a corridinha, que era o motor do sistema que movia a bola. Se aproxima e, devagar, põe a mão no pequeno mas tenso ombro e, dando um gole na garrafa de água, pergunta se o menino quer um sorvete.