Um banco de praça. Por ele uma mulher passa, volta, senta, acena. Coca-Cola Plus Café Expresso de graça na mão, amostra de lançamento. Ela acende um Free e um lamento alheio atrai seu olhar para o lado. Tenha um bom coração, um trago pra este pobre coitado, rogava um esfarrapado à meia distância. Os lábios finos tragam prolongadamente o cigarro e a mão se estende com a lata de Coca. Ô desgraça, isso aí eu pego ali, eu quero é o careta, diz o homem que sai xingando com seus trapos. O celular dela toca uma vez, ela tira da bolsa o Motorola, desenrola a alça da mão e identifica o número da ligação. O telefone chama a segunda vez… ela observa. A terceira vez… Estrondo de vidro, a mulher levanta num susto, ajusta o busto do vestido às pressas, com olhar fixo na esquina corre pra ver. A lata na beira do banco fica.
Um banco na avenida principal, Itaú. Estouro na vidraça. Vai, vai, vai, vai, vamo parça, é o que se escuta, não se sabe bem de quem em meio a correria do outro lado da praça. Na calçada uma Amarok atravessada, entrou de ré. Três homens de pé e o resto deitado no chão da agência, é o que se via a distância pelo para-brisa quebrado. Tudo rápido, questão de segundos. Moiô, moiô, alguém falou. Três estalos, ninguém se levanta, o pneu canta, a picape arranca pela avenida, algo cai, ela sai pela contramão e vira à esquerda. Cáaarai, que porra foi essa? Depressa, depressa. Alguém machucado? Baleado? Que que caiu, alguém viu? – muita gente fala, difícil entender o que aconteceu.
O moleque descalço, de longe avista o que ficou no meio da pista e vai buscar. Um Nike Multicor. Com dor no coração por não ser o par, mesmo assim correu, foi pegar. Já sem o cigarro, a mulher de boca delgada, desesperada grita, aflita com o menor atravessando fora da faixa, sem olhar para os lados. Embalados pela ladeira um Mercedes Toco Baú e uma Honda CG. O motoboy ao perceber o menino desviou, seguiu. O motorista do caminhão não, freou e jogou sobre a guia. Mais um pouco e batia na banca de jornal. Parou um pouco antes, graças a grande roda que atolou na sapata de concreto fresco. Antes deixou seu rastro, abalou a estrutura que segura o mastro da bandeira nacional. Silêncio geral e olhares atentos, para o alto, para a base. A espera pelo pior. Não cai não, disse o jornaleiro com uma Veja na mão.
Quatro e dezenove, o sol ainda brilha intenso. A jovem senhora que acabara de atravessar a avenida, acende o último do maço, tranquiliza o passo e cruza lentamente a praça com seu vestido justo – e o mastro começa a cair. Dois adolescentes parados com uma vela na mão, oração a Jah por começar, um caucasiano sem camisa, com ela no braço, o outro com traços nipônicos usa boné – e o mastro caindo. Um velho preto vendendo espeto de carne, linguiça e frango, com um cachorro olhando em frente à loja Novo Mundo – e o mastro caindo. A bandeira enrosca num poste de luz, rasga. O “progresso” ficou lá no alto, na ponta do poste, junto com boa parte do verde mata. O vendedor de Ocas percebeu a tempo, saiu de banda e o mastro caiu. Caiu sobre a lata de Coca na beira do banco. O líquido, quarenta por cento a mais de cafeína, escorre, impregna no tecido, encharca as estrelas pelo chão. Restou o florão da “ordem” entre a lata que fulgura amassada e o banco quebrado.
Emol