Visibilidade

Wislawa Szymborska, poeta polonesa

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Leitura de Calvino [Visibilidade, Exatidão]

A imagem será tanto mais inesquecível quanto simples e única.

Calvino: “Às vezes me parece que uma epidemia pestilenta tenha atingido a humanidade inteira em sua faculdade mais característica, ou seja, no uso da palavra, consistindo essa peste da linguagem numa perda de força cognoscitiva e de imediaticidade, como um automatismo que tendesse a nivelar a expressão em fórmulas mais genéricas, anônimas, abstratas, a diluir os significados, a embotar os pontos expressivos, a extinguir toda centelha que crepite no encontro das palavras com novas circunstâncias (…)”

Esse automatismo tem nome: é o famoso lugar-comum.

“Não me interessa aqui indagar se as origens dessa epidemia [estensível ao universo das imagens] devam ser pesquisadas na política, na ideologia, na uniformidade burocrática, na homogeneização dos mass-media ou na difusão acadêmica de uma cultura média. O que me interessa são as possibilidades de salvação. A literatura (e talvez somente a literatura) pode criar anticorpos que coíbem a expansão desse flagelo lingüístico.”

A literatura seria um antídoto contra a peste da linguagem, que faz repetir e modular as construções monolíticas da realidade e se relaciona à língua técnica, demagógica, publicitária que a sociedade impôs.

“Hoje somos bombardeados por uma tal quantidade de imagens a ponto de não podermos distinguir mais a experiência direta daquilo que vimos há poucos minutos na televisão.”

“Essa superabundância imagética (…), um dilúvio de imagens pré-fabricadas que inundam a humanidade (…) faz com que em nossa memória se depositem, por estratos sucessivos, mil estilhaços de imagens, semelhantes a um depósito de lixo, onde é cada vez menos provável que uma delas adquira relevo.”

“Vivemos sob uma chuva ininterrupta de ima­gens; a mídia toda-poderosa não faz outra coisa senão transformar o mundo em imagens, multiplicando-o numa fantasmagoria de jogos de espelhos — imagens que em grande parte são destituídas da necessidade interna que deveria caracterizar toda imagem, com o forma e como significado, como força de impor-se à atenção, com o riqueza de significados possíveis. Grande parte dessa nuvem de imagens se dissolve imediatamen­te como os sonhos que não deixam traços na memória; o que não se dissolve é uma sensação de estranheza e mal-estar. Mas talvez a inconsistência não esteja somente na lingua­gem e nas imagens: está no próprio mundo. O vírus ataca a vi­da das pessoas e a história das nações, torna todas as histórias informes, fortuitas, confusas, sem princípio nem fim. Meu mal-estar advém da perda de forma que constato na vida, à qual pro­curo opor a única defesa que consigo imaginar: uma idéia da literatura.”

Possibilidades de salvação

O bom contista tenta contar através de imagens extraordinárias. Imagens que extrapolam sua aparente simplicidade por conta de sua densidade de significados. Ou mesmo imagens já usadas, porém recicladas, inseridas num contexto novo que lhes mude o significado e o impacto sensorial. As imagens serão belas por sua inventividade.

Isso não quer dizer que a beleza dessas imagens precise ser “bonita”.

No romance Nadja, o surrealista Breton pedia: “a beleza será convulsiva ou não será”. Lautréamont, o escritor uruguaio que foi grande influência sobre os surrealistas, sugeria que o belo fosse como “o encontro fortuito entre um guarda-chuva e uma máquina de costurar sobre uma mesa de dissecação”. Cortázar, que era um pós-surrealista, imaginou um sujeito que um belo dia acordasse vomitando coelhos (“Carta a uma senhorita em Paris”, Bestiário).

Importante: a imagem deve ser móvel.

Pense em Dom Quixote investindo contra os moinhos de vento, uma das imagens mais extraordinárias da literatura. Em Hamlet conversando com uma caveira. No diabo no meio do redemoinho em Grande Sertão: Veredas. Nas aparições do monolito negro de 2001 (de Arthur C. Clarke). No Merseault de Camus matando um árabe por causa do sol forte. Nos olhos de cigana oblíqua e dissimulada de Capitu agitando o Dom Casmurro de Machado. Em Simone sentando-se nua sobre um prato de leite (A História do Olho, Bataille). No piloto Carlos Wieder escrevendo poemas no céu de Santiago em Estrela Distante, de Bolaño. Em Ahab lutando contra a grande baleia branca (Moby Dick, Melville). No sorriso do Gato de Cheshire (Carroll). Na cadela Baleia sonhando com preás antes de morrer (Vidas Secas, Graciliano). No gato preto sendo emparedado por Poe. Na galinha sendo degolada por Quiroga. Em Gregor Samsa kafkianamente virando barata. Ou em GH comendo uma barata viva. Ou a barata que escapa no fim do conto “As antenas da raça”, de Sérgio Sant’Anna.

A boa imagem, a imagem necessária, aquela que anima o conto, pode sair de um detalhe único. Lembre-se: o Diabo está nos detalhes.

Exercício de memória para pensar enquanto você está indo pra casa

Tente se lembrar dos 5 filmes mais importantes de sua vida. Não os melhores, mas os que foram mais importantes para você. Faça uma lista desses 5 filmes. De cada filme, separe somente uma cena. Verá que a cena — e às vezes, o filme inteiro — surge de uma imagem forte, expressiva, significativa e única.

A minha favorita é o voo dos helicópteros ao som de A Cavalgada das Valquírias enquanto marines surfam na costa do Vietnã em Apocalipse Now. Ou, pra ficar só em helicópteros, uma imagem do Cristo sendo trazido por um helicóptero, na abertura de La Dolce Vita. Outra abertura famosa é a perseguição à galinha em Cidade de Deus – um filme tão violento e você se lembra de uma galinha, veja só.

Os grandes diretores filmam coisas que nunca foram antes vistas.

Os grandes contistas enxergam imagens que nunca antes foram imaginadas. Este é o norte.

*

Dica:

para pensar por imagens, leia poesia.

Para se inspirar e limpar o olhar dos lugares-comuns, procure ler poetas cuja poesia gire em torno de substantivos concretos; poemas cujos versos se assentem sobre imagens em movimento.

WILLIAM CARLOS WILLIAMS

“O carrinho de mão vermelho”

tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

esmaltado de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas.

“Poema”

Ao trepar sobre
o tampo do
armário de conservas

o gato pôs
cuidadosamente
primeiro a pata

direita da frente
depois a de trás
dentro

do vaso
de flores
vazio.

“A duração”

Uma folha amarfanhada
de papel pardo mais
ou menos do tamanho

e volume aparente
de um homem ia
devagar rua abaixo

arrastada aos trancos
e barrancos pelo
vento quando

veio um carro e lhe
passou por cima
deixando-a aplastada

no chão. Mas diferente
de um homem ela se ergueu
de novo e lá se foi

com o vento aos trancos
e barrancos para ser
o mesmo que era antes.

*

ANGÉLICA FREITAS

*

ANA MARTINS MARQUES

*

BRUNA BEBER

MARCELO MONTENEGRO

WIZLAWA SZYMBORSKA

*

ITALO CALVINO

*

ANA CRISTINA CESAR

“Arpejos” (CenasdeAbril)

1
Acordei com coceira no hímen. No bidê com espelhinho examinei o local. Não surpreendi indícios de moléstia. Meus olhos leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem significado a mais. Passei pomada branca até que a pele (rugosa e murcha) ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente meus projetos de ir de bicicleta à ponta do Arpoador. O selim poderia reavivar a irritação. Em vez decidi me dedicar à leitura.

2
Ontem na recepção virei inadvertidamente a cabeça contra o beijo de saudação de Antônia. Senti na nuca o bafo seco do susto. Não havia como desfazer o engano. Sorrimos o resto da noite. Falo o tempo todo em mim. Não deixo Antônia abrir sua boca de lagarta beijando para sempre o ar. Na saída nos beijamos de acordo, dos dois lados. Aguardo crise aguda de remorsos.

3
A crise parece controlada. Passo o dia a recordar o gesto involuntário. Represento a cena ao espelho. Viro o rosto à minha própria imagem sequiosa. Depois me volto, procuro nos olhos dela signos de decepção. Mas Antônia continuaria inexorável. Saio depois de tantos ensaios. O movimento das rodas me desanuvia os tendões duros. Os navios me iluminam. Pedalo de maneira insensata.

*[Aqui há uma excelente análise crítica deste poema, pela professora Mônica Genelho Fagundes, da UFRJ.]

PROPOSTA

E é isto o que você vai fazer. Você vai escrever um conto. Pense que seu conto é como uma tirinha de jornal: um cartum organizado em três quadrinhos.

Começo, meio, fim. Que nem faz o Laerte, maior cartunista em atividade, assim:

Resultado de imagem para tiras laerte
Resultado de imagem para tiras laerte
Resultado de imagem para tiras laerte
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Portanto, organize seu conto sobre três imagens.

Pense em imagens móveis, coisas se mexendo: estruture o texto sobre objetos concretos em movimento.

Quanto mais diferentes forem a imagem 1 da imagem 2 e da imagem 3, melhor.

Agora, pense em essas três imagens são o eixo de três cenas.

Isto é: crie um mesmo personagem para as três cenas. Crie ainda espaço, tempo, climas, ritmo e linguagem ao seu gosto.

Cuidado com o tempero, ou seja, com os adjetivos e os advérbios: tempero em excesso tira o sabor da comida, dá indigestão, azia.

Sirva em uns 3 mil toques, a frio.

*

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